domingo, 21 de outubro de 2018

BATUKEDOPÉ LEVA OS BENEFÍCIOS DO SAPATEADO PARA TODAS AS IDADES

Por Célia Ribeiro

O aluno chega, calça os sapatos especiais e aos primeiros passos dá início à magia dos sons cadenciados: é impossível ficar indiferente. O sapateado, estilo de dança que surgiu na Irlanda, a partir das batidas dos tamancos de madeira, tem em Marília um espaço democrático em que crianças, jovens, adultos e o pessoal da melhor idade convivem em harmonia. Não há limite para a arte que reúne música e dança trazendo benefícios para o corpo e para a mente.

O “Batukedopé”, criado pela sapateadora profissional Valéria Sanches, funciona desde 2.013 no mesmo endereço, mas a história dessa escola de arte começou bem antes. Aos 45 anos, casada e mãe da Maria (06 anos) e João (14 anos), a professora conheceu o sapateado aos 16 anos e se encantou. Durante 12 anos, dedicou-se a ensinar a técnica para crianças da educação infantil de um colégio tradicional de Marília e outro de Pompéia.

A vivência no ambiente escolar da educadora física, pós-graduada em Educação Infantil e em Arterapia, ampliou sua bagagem possibilitando que ela mergulhasse fundo no desenvolvimento de técnicas para que crianças a partir dos três anos também pudessem sapatear. Assim nasceu o “Brincatap”.
Alunos antes do ensaio nesta semana
 Sonhando em difundir o sapateado, Valéria deixou a estabilidade dos dois empregos para aventurar-se em carreira solo, passando a oferecer suas aulas no conceituado Centro de Dança Denise Nardi a convite da amiga, proprietária do espaço. Alguns anos depois, com a mudança de direção e graças ao incentivo do marido, achou que era hora do “Batukedopé” sair do casulo.

Ela disse que relutou antes de ir para o Centro de Dança cujo forte era o balé clássico: “Academia de dança não é para lidar com educação, com o ser educativo. Academia de dança é mais para apresentar para os pais no fim do ano. Nas escolas eu trabalhava o conceito pedagógico de cada instituição. Se a escola trabalhasse aquele ano com meio-ambiente, as minhas aulas seriam direcionadas para o meio-ambiente”.
Os pequenos também podem sapatear
O trabalho era intenso: “Eu fazia muita pesquisa para transformar o espetáculo em um tema pedagógico: Pesquisa musical, corporal, de movimento, de som, de figurino, cenário, tudo.
Eu produzia, concebia e dirigia o espetáculo e, muitas vezes, também participava”, recordou.

A grande virada aconteceu em 2.013 quando o marido abriu mão de trocar o carro de trabalho para investir na escola de sapateado, inaugurada em fevereiro do ano seguinte. Na Rua Mato Grosso, 133, o prédio foi totalmente reformado para tornar-se o espaço em que a criatividade não tem limite e a alegria pode ser notada desde a entrada.
Valéria e a galeria de astros do sapateado

BATENDO OS PEZINHOS

Como todo início, a escola começou tímida, com apenas 28 alunos. Mas, a paixão pelo sapateado não deixava o desânimo chegar perto da idealizadora: Valéria estava com uma bebê de menos de dois anos que já queria sapatear. O filho de 14 anos também começou bem cedo e isso despertou o interesse pela criação de técnicas voltadas aos pequenos.
João ganhou bolsa para curso nos EUA
O “Brincatap” lançado com apenas três alunos, hoje possui três turmas e a procura continua crescendo apesar do sapateado não ser uma dança muito conhecida. “No esporte, o futebol é mais popular. Na dança, é o balé. Isso é cultural”, observou Valéria Sanches, que tem um bom motivo para manter o otimismo: seu filho acaba de ganhar uma bolsa de estudos para fazer um curso em Washington (EUA), em abril de 2019.
Chloe e João Aurélio

João foi descoberto pela sapateadora americana Chloe Arnold durante um festival no Rio de Janeiro: “Ela se encantou com ele e ofereceu a bolsa de estudos. Agora, estamos em campanha para conseguir arcar com as despesas da viagem e hospedagem já que não teremos que pagar pelo curso”. Ela explicou que há planos para captar doação de milhas no cartão de crédito. Quem se interessar em contribuir pode contata-la no e-mail:  batukedope@gmail.com

Valéria procura participar de festivais internacionais de sapateado e o crescimento da modalidade no Brasil também é motivo de alegria. Ela contou que, há alguns anos, o sapateado era apresentado nos últimos números dos festivais e não contava com especialistas para julgar os participantes: “Eu não me conformava de não ter nenhum professor de sapateado para me avaliar tecnicamente. Os bailarinos que estavam me avaliando viam se eu tinha presença de palco, se estava dentro do ritmo, se meu figurino estava adequado, se a música tinha a ver com a coreografia, só isso”.

No entanto, nos últimos 10 anos, houve uma grande mudança e estão surgindo festivais só de sapateado onde Valéria tem a oportunidade de participar de cursos e se apresentar, assim como seu filho João que desponta como um talento da nova safra de sapateadores.
João, o bailarino Jarbas Homem de Melo, a atriz e bailarina Claudia Raia e Valéria
“Quero criar um público fino do Batukedopé, do sapateado. Esse ano estou produzindo o quinto espetáculo, que será apresentado nos dias 15 e 16 de dezembro no Teatro Municipal de Marília.
Quero mostrar que sapateado é uma arte tanto quanto o balé, a pintura, o teatro, e é muito mais completo porque a gente faz música com os pés”, assinalou.

A professora destacou que “o sapateado vem crescendo no Brasil absurdamente. Temos vários profissionais que estão levando muito a sério”, citando a Cristiane Matalo, madrinha do seu filho João Aurélio e também do Batukedopé, e professora de sapateado da atriz e bailarina Claudia Raia. Entre os expoentes, elencou ainda Steven Harper, um americano que vive há 30 anos no Brasil, Kika Sampaio, Cintia Martan, entre outros.

FAZ TÃO BEM

Na entrada da escola de sapateado, ícones como Fred Astaire, Ginger Rogers, Gene Kelly e Ann Muller, decoram a parede em retratos em preto e branco. São pura inspiração para quem descobriu os benefícios do sapateado. “A primeira coisa que o sapateado contribui é a apreciação musical. Por incrível que pareça ele contribui para o ritmo, para a musicalidade, coordenação motora, lateralidade, toda a parte da psicomotricidade, que tem que ser desenvolvida em uma criança e no jovem até os 18 anos, o sapateado contribui claramente”, comentou Valéria.
Apresentação de 2017
Ela destacou que se trata de “uma atividade aeróbica. Além de trabalhar uma arte, a sensibilidade, um olhar diferente para as coisas, ele traz uma alegria que nem sei como falar. Isso eu ouço de alunos”, disse, citando que seu espaço recebe sapateadores de 03 aos 72 anos.

Valéria em apresentação solo
Valéria Sanches afirmou que a experiência na comunidade escolar lhe “trouxe uma bagagem importante. Dentro do Batuke eu trabalho dentro de um planejamento pedagógico: existe chamada e calendário escolar com todos os eventos. Faço questão de todos os anos trazer um sapateador de outra cidade para fazer uma troca com meus alunos, para meus alunos dançarem para ele e ele dançar para os meus alunos”.

Esse evento, chamado de “Work Tap”, acontece na última semana de junho antes das férias do meio do ano e já recebeu grandes nomes, como Chris Matalo: “O Batuke está tendo bastante visibilidade fora porque a gente vai muito para fora. E aqui em Marília falta conhecimento. Quero mudar essa cultura. O sapateado também ensina delicadeza, postura e musicalização”.

Para o público em geral, os espetáculos de fim de ano são uma boa oportunidade para conhecer o sapateado na sua melhor forma. Nos anos anteriores foram apresentados os temas: “Aqui dentro tem batuque”, “Tap Vintage”, “Brasileirismos” (homenagem aos 100 anos do samba), e “O ser tão bom” sobre o sertão.

Em dezembro deste ano, haverá homenagens aos artistas que se foram e deixaram um legado como Michael Jackson, Fred Mercury, Elis Regina, Elvis Presley e Portinari: “Para onde vão as estrelas?” trará números de sapateado concebidos com muita técnica.

RESPONSABILIDADE SOCIAL

Paralelamente às atividades na escola de arte, Valéria Sanches é professora voluntária de sapateado, às segundas-feiras, na ONG Projeto Semear. E, convivendo com crianças e adolescentes de baixa renda assistidos pela entidade, resolveu criar uma campanha para adoção de sapateadores.
A cada ano um espetáculo diferente
Atualmente, seis adolescentes estudam sapateado, em vários níveis, no Batukedopé, graças à adoção de artistas. Qualquer pessoa que se interessar em contribuir, pode apoiar uma criança ou jovem custeando despesas como uniforme, sapatos, figurino da apresentação de fim de ano e taxa do Work Tap, atividade do encerramento do semestre com sapateador profissional. Para saber mais sobre o assunto, acesse: www.batukedope.com.br

CAROL ALABY

A artista multifacetada Carol Alaby fala com carinho da vivência no Batukedopé: “A professora Valéria Sanches faz parte da minha vida há aproximadamente 20 anos. Primeiro tia Valéria, depois a Val, minha amiga, mãe da dança e companheira das artes. Uma grande inspiração como pessoa e como artista, foi ela quem me apresentou o universo do sapateado”.

Pianista, professora de música, acrobata, atriz e contadora de história, Carol transpira arte pelos poros. Ela destaca a importância de Valéria Sanches para sua formação: “Com grande conhecimento em dança e um bom gosto inquestionável, a Val possibilitou que eu experimentasse movimentos, descobrisse a dança em mim e me apaixonasse pela arte do sapateado, que me completa tanto porque é produção de dança e música, ao mesmo tempo.”

E finalizou: “Acompanhei o nascimento e o crescimento do Batukedopé e afirmo que essa escola é um verdadeiro presente para a nossa cidade. A Val desenvolve um trabalho muito sério, respeitoso e coerente, que possibilita para nós um desenvolvimento em todas as áreas da vida, muito para além da dança”.



ASSISTA O VÍDEO DA CAMPANHA DO JOÃO
 

* Reportagem publicada na edição impressa do Jornal da Manhã em 21.10.2018

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