domingo, 9 de junho de 2019

PROJETO DEVOLVE A AUTOESTIMA ÀS MULHERES VÍTIMAS DE VIOLÊNCIA DOMÉSTICA.

Por Célia Ribeiro

Segundo uma pesquisa divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, uma em cada quatro mulheres sofreu violência no Brasil, em 2.018. Em 42 por cento dos casos, as ocorrências foram registradas no ambiente doméstico. Além de profundos traumas psicológicos, muitas vezes, a violência deixa sequelas visíveis no rosto da vítima. Por isso, ao integrar o Projeto “Apolônias do Bem”, Marília passou a oferecer um alento a essas mulheres que recebem tratamento odontológico gratuito, contribuindo para o resgate de sua autoestima.
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O projeto “Apolônias” da ONG “Turma do Bem” (TdB), conhecido pelo atendimento odontológico gratuito às crianças e adolescentes no Brasil e em vários países, começou em 2012 por São Paulo, explicou a cirurgiã-dentista coordenadora da entidade em Marília, Ana Carolina Massaro. Conforme disse, “a organização, vendo a situação de mulheres que passam por violência, que tinham atendimento psicológico, assistência judiciária e atendimento médico, mas não tinham atendimento odontológico na rede pública e muito menos condições de fazer no particular”, decidiu abrir uma nova frente.
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O nome “Apolônias do Bem” foi cunhado em referência à Santa Apolônia, padroeira dos dentistas que, no ano 246 em Alexandria, morreu após ser presa, espancada e ter seus dentes quebrados e arrancados a sangue frio. De acordo com a ONG, o projeto “oferece tratamento odontológico integral e gratuito às mulheres que vivenciaram situações de violência e tiveram a dentição afetada durante as agressões”.
Dra. Ana Carolina em triagem de crianças


Desde 2012, foram atendidas mais de 1.000 mulheres que são selecionadas por triagens quando passam por exame oral e respondem a um questionário. A prioridade é para “mulheres com problemas odontológicos mais graves, que sustentam a família e retomaram os estudos ou estão fazendo cursos de capacitação profissional”.

As pacientes são atendidas por uma rede de dentistas voluntários. Em Marília, há 75 “Dentistas do Bem” que atendem crianças e adolescentes. Por enquanto, apenas Ana Carolina Massaro iniciou os atendimentos às Apolônias. Ela explicou que um colega se prontificou a participar e deverão ser convidados os profissionais que já fazem parte da Turma do Bem ou que ainda não são voluntários.


PRECONCEITO

Como se não bastasse a violência, as mulheres vítimas de violência doméstica têm que conviverem com o medo, a vergonha e a dificuldade de inserção no mercado de trabalho: “Muitas mulheres com baixa escolaridade trabalhavam como domésticas em casas de família e contam que, por causa dos dentes quebrados, não conseguiam mais emprego”, observou Ana Carolina.
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Ela prosseguiu contando que “as mulheres relatam que passam anos sem se olharem no espelho porque quando elas se olham no espelho veem a consequência do ato de agressão, lembram do agressor, do fato e passam mal. Quando você faz o tratamento e devolve o sorriso, a primeira coisa que fazem é ir para a frente do espelho passar um batom. Você devolve a autoestima e a esperança de vida”.

Ela explicou que os dentistas voluntários realizam o tratamento completo nas pacientes, desde prótese até implantes nos casos em que há indicação. Para isso, o projeto “Apolônias do Bem” em Marília conta com apoiadores como a ROD (Radiologia Odontológica Digital), PC Laboratório de Prótese e Implacil (implantes).
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Segundo Ana Carolina, para expandir o projeto há necessidade de aumentar o número de dentistas voluntários, “e a gente conseguir chegar nessas mulheres. Em Marília não tem Casa de Apoio, de Acolhimento. Mas, temos parceria com a Delegacia da Mulher e quando chega uma mulher e veem que o caso atingiu os dentes, a delegada Dra. Viviane entra em contato comigo e a gente vê se consegue encaixar”.

A coordenadora da “Turma do Bem” na cidade foi eleita embaixadora do projeto “Dentistas do Bem” por 07 anos consecutivos sendo premiada, em 2014, como “Melhor Dentista do Mundo” em solenidade que reuniu profissionais de vários países que integram a ONG.
Ana Carolina Massaro na premiação de "Melhor Dentista do Mundo"
PREFEITURA

Em contato com a Diretoria de Comunicação da Prefeitura de Marília, a respeito de ações focadas no problema da violência contra as mulheres, a assessoria enviou uma nota informando que, por meio da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, o Município “oferece como parceria, através da SADS, uma assistente social dentro da delegacia, que faz o encaminhamento das mulheres que desejam ser atendidas. O atendimento é feito no CREAS, através de grupos, atendimento da família e do indivíduo”.

A nota oficial acrescenta que “fazemos ainda encaminhamento para a justiça e saúde conforme demanda e estamos iniciando um trabalho com o agressor. Acaba de ser assinado convênio entre Prefeitura e Justiça, através de um anexo onde os fluxos serão mais efetivos.
Além disso, trabalhamos dentro dos CRAS e serviços de convivência, com a prevenção da violência, através de palestras, grupos e debates”.

ARTINA: HISTÓRIA DE SUPERAÇÃO

Quem vê a morena sorridente, maquiada e exalando autoconfiança não imagina o seu passado. Artina Maria de Souza, 49 anos, moradora da zona sul, foi uma das “Apolônias” beneficiadas pelo projeto em Marília. Em 1.995, ela foi vítima de violência do ex-companheiro que atingiu seu rosto com um aparelho de rádio amador que, em meio aos graves ferimentos, comprometeu seus dentes.
Artina criou rede de apoio

“Tudo o que eu fazia para consertar era perdido porque afetou a arcada dentária”, contou ao recordar os anos que passou sofrendo com o problema. Durante quase 12 meses, em 2017, ela recebeu atendimento gratuito no consultório da Dra. Ana Carolina Mascaro resolvendo, de vez, o problema.

“Quando acabou, eu me senti outra pessoa, com a autoestima lá em cima”, afirmou ao explicar porque resolveu ajudar outras mulheres que enfrentam maus tratos. “Criei o projeto ‘Mudança de Vida’ que apoia as mulheres vítimas de violência”, acrescentou. Em sua residência, ela promove reuniões que atraem até 20 participantes, cada vez, em uma teia de acolhimento que dá suporte àquelas que vivem o mesmo problema.

Artina, que mantém um pequeno brechó na entrada de casa, arrecada roupas e brinquedos para doar às mulheres que a procuram. Ela também dá dicas de economia doméstica como, por exemplo, receitas para aproveitamento integral dos alimentos evitando o desperdício, ensina a fazer detergente, sabão etc.

Mãe de quatro filhos e com cinco netos pequenos, Artina dedica-se a apoiar as “Apolônias” que encontra pelo caminho: “Sempre digo a elas para não desistirem de seus sonhos, para denunciarem e não se calarem diante de uma agressão”. No íntimo, a ex-vítima que se tornou ativista social quer ver mais sorrisos e mulheres que consigam se olhar no espelho e gostarem da imagem refletida.

Para saber mais sobre a Turma do Bem e o projeto, acesse: turmadobem.org.br. Ligue para: (11) 50847276 ou escreva para apoloniasdobem@tdb.org.br

*Reportagem publicada na edição de 09.06.2019 do Jornal da Manhã

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