domingo, 24 de novembro de 2013

ÁLCOOL E DROGAS: A LUTA DIÁRIA DE QUEM QUER SAIR DAS RUAS.

Por Célia Ribeiro

Arrastando a velha sandália de pneu cujas tiras teimam em se despregar do solado gasto, o homem de cabeça baixa e costas curvadas tem o olhar embaçado. O sol a pino castiga a pele curtida e ele não se reconhece e nem ao lugar aonde chegou. Aparentando setenta e poucos anos, o homem não lembra o próprio nome, de onde veio e nem quando nasceu. Ao cruzar o portão, mais uma vez, ele sabe apenas que vai travar uma dura batalha para encontrar sua essência, aquilo que era antes de perder-se no mundo.
 
Ampla área verde: lugar de recomeçar.

A chegada de um novo interno à Fumares (Fundação Mariliense de Recuperação Social), entidade retratada na reportagem de domingo passado, é acompanhada com curiosidade pelos 65 internos. Muitos estão ali pela terceira ou quarta vez e suas histórias são muito parecidas: depois de chegarem ao fundo do poço, finalmente aceitam ajuda e mudam-se para a entidade em busca do recomeço.

No entanto, com o passar do tempo, a abstinência de álcool e drogas os desafia a procurarem a liberdade deixando para trás todo o trabalho desenvolvido com afinco pela equipe da instituição que, como não poderia deixar de ser, experimenta uma sensação de impotência e tristeza por ter perdido mais uma batalha para a sedução das ruas.

 
Trabalho no campo: terapia.
“É muito triste ver que, depois de alguns meses aqui, onde eles têm tudo para viverem com segurança e conforto, acabam pedindo para sair. Ninguém prende ninguém. Eles têm o direito de sairem na hora que quiserem, bastando assinar o termo de desligamento. Mas, a gente fica arrasado quando isso acontece”, afirmou o presidente da Fumares, Paulo Roberto Vieira da Costa.

FILA DA REPOSIÇÃO

Quando os moradores de rua aceitam ajuda e ingressam na Fumares, eles recebem roupas e calçados, lençóis, cobertores e travesseiros limpos e em bom estado. Toda sexta-feira, quando toca a sirene, os internos fazem fila para reabastecerem seus estoques de materiais de uso pessoal: sabonete, creme dental, escova de dente, papel higiênico, aparelho de barbear e uma caixa de fósforos para os fumantes.

Refeitório onde são alimentados com refeições balanceadas
Os quartos são limpos e equipados com armários e ventiladores onde se acomodam poucos internos em cada unidade. Na verdade, eles vão aos quartos apenas para dormir porque durante o dia há inúmeras atividades coletivas que funcionam como terapia ocupacional. Assim, revezam-se para limpeza dos quartos, dos banheiros dotados de chuveiros de água quente, da cozinha e das áreas comuns, praticam jardinagem, trabalham na horta, cuidam dos frangos etc.

No fim do dia, podem se distrair com jogos de sinuca ou relaxarem assistindo os programas na TV de LCD de 50 polegadas com antena SKY, mostrada na reportagem passada. O objetivo é manter os internos ocupados enquanto são providenciados documentos e contatados seus familiares (quando possível) para que possam voltar à vida em sociedade.

Frangos descongelando para o almoço
O apoio espiritual é muito valorizado, explicou o presidente da instituição. Ele informou que  há atividades com a presença de religiosos tanto evangélicos como de católicos. São celebradas missas e realizados cultos em que a palavra de Deus é apresentada aos ex-moradores de rua como um bálsamo a lhes aliviar as dores da alma.

COMEMORAÇÕES

Paulo Vieira da Costa destacou a participação de voluntários que visitam a instituição e desenvolvem atividades educativas e recreativas. “Essa integração com a comunidade é muito importante. Eles sentem que tem gente que se preocupa com eles”, observou, contando que logo um grupo de internos irá a Aparecida do Norte, acompanhado de monitores.

 
Uma indústria alimentícia doa uniformes e calçados usados de seus funcionários
As datas comemorativas também são lembradas na Fumares: na “Semana Santa” teve bacalhau no almoço e na Páscoa os internos foram presenteados com chocolate. Além disso, uma vez por mês, um proprietário de padaria da zona sul doa um bolo e a entidade providencia salgadinhos e refrigerantes para a comemoração dos aniversários.
Só faltam as cortinas nos quartos, mas que chegarão em breve.
A alimentação dos internos, à base de carne, frango, verduras, legumes e frutas, é outro fator que merece destaque. Com horta orgânica cultivada no local, não faltam produtos de qualidade sempre frescos. O excedente supre 32 entidades que recebem as cestas de hortaliças semanalmente, incluindo-se as unidades da Casa do Pequeno Cidadão, escolas, creches e asilos.

 ÁLCOOL E DROGAS

 
Frutos amadurecendo: a natureza responde aos cuidados.


Casa, comida, roupa lavada, cama quente, apoio espiritual, lugar seguro. O que falta aos internos que insistem em voltar às ruas após alguns meses? A resposta é complexa. Mas o principal vilão, segundo o presidente da Fumares, é a dependência química. “Estamos trazendo o N.A. (Narcóticos Anônimos) e reativando o A.A. (Alcoólatras Anônimos), além de enviarmos alguns internos para tratamento no CAPS-AD (Centro de Apoio Psicossocial – Álcool e Drogas)”, explicou o presidente. É um paliativo, reconhece, mas melhor que nada.

 
Jogo de sinuca nos momentos de lazer
Conforme disse, “se em clínicas particulares, onde se paga para recuperar um dependente químico é difícil conseguir a cura, porque muitos voltam a consumir drogas, imagine aqui onde não temos estrutura para tratamento. A Fumares não é um lugar para receber dependentes químicos. Para eles, teríamos que ter uma estrutura maior, com mão-de-obra especializada etc”.

Segundo Paulo Vieira da Costa, como a Fumares está localizada numa área ampla, às margens da Rodovia Marília – Assis, no futuro o município poderia obter recursos federais e estaduais para construir naquele espaço uma comunidade terapêutica com a ajuda da sociedade: “Creio que um projeto desses teria o apoio dos clubes de serviço, da indústria e de todos que gostariam de contribuir com uma causa nobre”, observou.

Verduras e legumes frescos abastecem a Fumares e mais 32 instituições
Enquanto o projeto não sai do papel, “a Fumares vai continuar recebendo todos que dela precisarem, fazendo seu trabalho com todo empenho para devolver a dignidade a esses homens. Queremos não só dar comida, roupa limpa e documentos. Queremos dar a oportunidade para que deixem o passado errante para trás e iniciem uma nova caminhada”,  finalizou o presidente.
 
LEIA AQUI A PRIMEIRA PARTE DESTA REPORTAGEM, PUBLICADA NO DIA 17.11.2013

2 comentários:

  1. Belíssimo trabalho de todos aqueles que se comprometeram em realizar o bem para esses pobres cidadãos, que, um dia, acabaram por tomarem o caminho que, muitas vezes, não retornam à dignidade que é inerente ao ser humano!!!

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    1. Boa tarde! Obrigada pelo comentário. Fiquei feliz por mostrar um lado da Fumares que poucos conheciam. Um abraço

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