sábado, 28 de abril de 2018

DONA SENHORINHA AFASTA A SOLIDÃO ESPALHANDO CORES PELA CASA.

Por Célia Ribeiro

Na rua principal do Distrito de Padre Nóbrega, uma casa muito simples chama a atenção de quem por ali passa pela primeira vez. Protegida por árvores centenárias, a construção do início do século passado exibe, qual uma galeria a céu aberto, a arte de dona Senhorinha. Ninguém paga nada para admirar as paisagens coloridas pintadas em pedaços de madeira, cascas de árvores e telas reutilizadas encontradas no lixo.
Exposição ao ar livre: telas coloridas na fachada da casa simples
Aos 60 anos, Maria Senhorinha Alves Feitosa Gavioli carrega uma profunda melancolia. Seu olhar distante e a fala monossilábica, entrecortada pelas lembranças do passado, dizem muito. “Foi por solidão”, revelou diante da pergunta sobre o começo de sua jornada. Casada com um servidor público municipal que trabalha na limpeza urbana e mãe de um único filho, “que gosta mesmo é de montar em boi”, ela utiliza os pincéis para colorir seu entorno como se convidasse a alegria para dentro.


As cascas de árvores são aproveitadas
No sábado (21), às 9h30, as panelas exalavam um convidativo aroma de alho e cebola refogados para o preparo do almoço. No feriado, ela recebeu a visita de parentes a quem pediu licença para atender a reportagem e mostrar, com visível timidez, um pouco de sua criação. Cada parede da casa é forrada com as pinturas. Além disso, cascas de árvore e galhos ajudam a compor a decoração do interior.
Melancolia: dona Senhorinha pinta para espantar a solidão
O contato com a natureza está impregnado em suas origens: “Eu gosto mesmo é de mexer na terra. Quando não estou aqui, estou no pedaço de terra lá embaixo, onde faço uma horta. Todo mundo ajuda, o pessoal da farmácia dá semente, adubo, água, e vou plantando o que dá”.

Das flores rústicas que encontra pelo caminho ela extrai a inspiração para as pinceladas. Sem se preocupar com técnica ou qualidade dos materiais, o que importa para dona Senhorinha é “fazer uma flor bonita e bem colorida”. Ela utiliza tintas de tecido, as mais simples e baratas: “Não tenho dinheiro para comprar tinta boa e nem tela. De vez em quando meu marido acha umas telas ou alguém traz umas usadas. Eu pinto por cima e faço outro desenho”, explicou.
Flores por todo lado

A solidão a que dona Senhorinha se referiu no começo da conversa está muito relacionada com a perda da mãe, em 2009, quando completaria 90 anos. Ela volta os olhos para a parede repleta de fotografias da família e mostra, orgulhosa, a imagem da mãe em um quadro antigo em que as cores se desgastaram com o tempo.
Memória viva: dezenas de fotos cobrem a parede da sala
Além disso, o marido passou longo período hospitalizado em tratamento e como o filho trabalha muito, saindo antes do sol nascer da edícula que ocupa no terreno ao lado, dona Senhorinha se sente muito só. “Às vezes faço crochê. Mas, também gosto de pintar e de colocar flores por todo lado”, assinalou.
Sobras de madeira e tinta de tecido: vale tudo para pintar
Um dos poucos momentos em que esboça um sorriso é ao se referir à netinha, “que vive com a mãe no Mato Grosso”. Ela sente muito a falta da menina e contou que a parede de fotos e lembranças ajuda a aliviar a saudade. Sobre o filho, as palavras são sempre de orgulho pelo “homem trabalhador que ele é e que nunca me deu trabalho. Não bebe, não fuma, não tem vícios. Só gosta de boi”.
Dona Senhorinha e o marido João Getúlio Gavioli
Quanto ao futuro, dona Senhorinha parece conformada com a vida simples e pacata que leva. E não tem esperança em vender seus quadros: “Ninguém compra. De vez em quando, aparece alguém com uma tela pra gente pintar. Mas, é difícil. Não tenho sorte”. E assim, segue pincelando cores e criando flores para aplacar a melancolia.

Quem quiser conhecer as flores de dona Senhorinha, o endereço é Avenida Sampaio Vidal, 668, no Distrito de Padre Nóbrega.

Um comentário:

  1. Nossa, que história!!! E há um antagonismo com o que pinta e o que sente...

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