segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

NAS ONDAS DO RÁDIO: PSICÓLOGO DISCUTE A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA SEM MEIAS PALAVRAS

Por Célia Ribeiro


Gelsi: programa inovador
 O que até alguns anos atrás era tratado como tabu, verdadeiro segredo de família, ganha cada dia mais visibilidade e choca a sociedade: a violência doméstica, com suas variadas faces, não escolhe nível cultural ou classe social e por isso desperta tanto o interesse das autoridades e da população em geral. A opinião é do psicólogo Antônio Carlos Gelsi que encontrou um jeito criativo de levar informação e orientação aos ouvintes em um programa semanal na Rádio Clube de Marília AM.

Na próxima quinta-feira ele estará nos microfones da emissora pela 107ª vez. Em cinco minutos,aproveitará a experiência profissional de quase 30 anos para enfocar, em linguagem simples, assuntos tão dolorosos como maus tratos a crianças e idosos, violência sexual, desestruturação familiar provocada por álcool e drogas, entre outros.

À experiência do consultório o psicólogo somou a vivência do trabalho voluntário que presta, há 08 anos, no Núcleo de Atendimento Multidisciplinar (NAM) da Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher. Tendo à frente a Dra. Rossana Camacho, delegada de Polícia e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher de Marília, o NAM também conta com a assistente social Cássia Giandon. O modelo de enfrentamento da violência doméstica da cidade é considerado referência pelo governo federal.

Gelsi revelou que a inspiração para o programa veio do terapeuta José Ângelo Gaiarsa que, nos anos 70/80, mantinha um programa na TV Bandeirantes onde as donas de casa participavam ativamente. Em pleno século 21, com celular e internet despejando notícias em tempo real, “o rádio ainda é o principal veículo de comunicação de massa e percebo como os temas mexem com os ouvintes”, observou.
Atendimento psicológico na DDM

PAUTA

Vencido o obstáculo inicial de se familiarizar com a formatação do programa, o psicólogo dedicou-se a pesquisar antes de eleger os assuntos. Por exemplo, se uma notícia de violência doméstica repercutiu nacionalmente, ele separa o material e estuda o assunto para produzir o conteúdo que levará informação e orientação aos ouvintes.

Ele citou o caso de uma mãe que vendeu o bebê de dois meses, por 50 reais, para comprar droga. Assim, a questão da dependência química e seus reflexos na família viraram bagagem para dois ou três programas com vários enfoques discutidos de maneira quase didática.

Um ponto em comum em todos os programas “é a reflexão que deixo ao final. Sempre procuro colocar todos os dados daquele assunto e deixar para o ouvinte, a quem me dirijo diretamente, pensar a respeito”, explicou.

Dra Rossana, Maria da Penha (que inspirou a lei), Cássia e Gelsi

Para o psicólogo, a informação é uma arma essencial da sociedade no combate à violência: “Todos devemos estar atentos. A sociedade tem que fazer sua parte. Por exemplo, com esse calor se uma criança vai à escola com blusa de manga comprida pode ser um indício que esteja escondendo marcas de espancamento, de queimadura de cigarro ou outra violência. A escola tem que estar alerta”.

Da mesma forma, observou que as denúncias também chegam pelos profissionais de Unidades Básicas de Saúde, vizinhos, membros do Conselho Tutelar etc, num demonstração de que ninguém quer ficar omisso e que interromper o ciclo de violência é fundamental.

Gelsi afirmou que “sempre houve violência doméstica; ela é cultural. O que temos hoje é maior visibilidade e isso não tem relação com pobreza. A pobreza só intensifica a violência que é produto da impunidade”. Ele elogiou a Lei 12.015 através da qual houve uma mudança na classificação de estupro. O que antes era considerado atentado violento ao pudor teve a pena aumentada.
Brinquedoteca para atender as crianças

Apesar da maior visibilidade do problema, o psicólogo disse que há muito que fazer porque a maioria dos casos não chega a público: “Existe uma estatística segundo a qual apenas 17% dos casos são notificados. Segundo a Fundação Perseu Abramo, a cada 15 segundos uma mulher é espancada no Brasil”.

Continuando, ele citou uma pesquisa do Instituto de Vitimologia do governo da Holanda que coloca o Brasil em triste primeiro lugar: 23% das mulheres brasileiras sofrem violência doméstica. Em Marília, só o NAM atendeu em 2010 cerca de 400 casos: “Relacionamentos familiares, conjugais e problemas com dependência química (álcool e drogas) são os principais motivos. Há inúmeros casos de filhos que, sob efeito de drogas, agridem a mãe”, assinalou.

Marília é uma das poucas cidades que contam com uma estrutura modelo de acolhimento dos casos de violência doméstica. As pessoas podem denunciar na Delegacia da Mulher, de segunda a sexta-feira, no Plantão Policiai à noite e nos finais de semana ou ligar para 180, a qualquer hora, e informar o problema porque receberá a orientação adequada.
Marcus Vinicius cedeu espaço

O programa do psicólogo Antônio Carlos Gelsi vai ao ar toda quinta-feira, dentro da programação do jornalismo da Rádio Clube AM, comandada por Marcus Vinícius, das 7 às 8h e das 11 às 12h.

*Reportagem publicada no "Correio Mariliense" de 27.02.2011

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