domingo, 25 de fevereiro de 2018

LIXO: FACULDADE PRODUZ ADUBO, GERA RENDA E FORMA PROFISSIONAIS MAIS CONSCIENTES.

Por Célia Ribeiro

Lembrando o velho ditado de que “do boi só não se aproveita o berro”, uma instituição de ensino superior encarou um grande desafio: provar a viabilidade da adoção de práticas de sustentabilidade ambiental, seguindo o que preconiza a Política Nacional de Resíduos, investir em pesquisas e, ao mesmo tempo, contribuir para a formação de profissionais mais conscientes. E como se tudo isso não bastasse, também conseguiu gerar renda com o que seria descartado nos aterros sanitários.
Suzana em sala de aula: o envolvimento dos alunos foi fundamental
A FAIP (Faculdade de Ensino Superior do Interior Paulista), campus de Marília e a FAEF (Faculdade de Ensino Superior e Formação Integral), campus de Garça, interior de SP, implantaram o Programa de Gerenciamento de Resíduos fazendo a coleta, separação e destinação do lixo gerado nas duas instituições, tendo à frente a médica veterinária Suzana Más Rosa, detentora de mestrado e doutorado com vasta experiência na elaboração e gerenciamento de projetos na área.

Tudo começou há quatro anos, recorda Suzana: “Sou professora do curso de medicina veterinária e comecei a ficar muito incomodada em ver o lixo todo misturado, principalmente os resíduos hospitalares com o material reciclável que estava sendo desperdiçado. Como tenho experiência como consultora ambiental nessa área, escrevi um projeto e fiz a proposta para a Faculdade.”
O lixo orgânico vai para compostagem e se transforma em adubo
Receptiva, a direção do Grupo FAEF abraçou a ideia. A princípio, Suzana iniciou o treinamento com os funcionários, no campus de Garça, onde estão o curso de Medicina Veterinária e dois hospitais veterinários. “Mudamos todo o sistema de descarte, implantamos um sistema de coleta seletiva, com separação nas lixeiras e, junto com isso, determinamos os locais de armazenamento temporário desses resíduos”, explicou.

Na sequência, foi a vez da sensibilização dos alunos, docentes e coordenadores. Conforme disse, “todos os alunos de todos os cursos passam por capacitações. Fazemos um trabalho de comunicação, com informativos e vídeos publicados nas redes sociais da faculdade, para reforçar o trabalho de educação que já é feito. Tanto em Garça na FAEF, como aqui na FAIP, o Programa de Gerenciamento de Resíduos é desenvolvido através do Núcleo de Educação Ambiental (NUEMA)”.
Capacitações permanentes: funcionários recebem orientações
Como coordenadora do projeto, que se tornou um programa da instituição, Suzana contou que “paralelo ao trabalho de separação, instituído nas lixeiras, foram construídos barracões em Garça e em Marília só para armazenar os recicláveis porque é muito resíduo gerado”. No caso da cidade vizinha, os recicláveis são vendidos a uma recicladora. Em Marília, os materiais são doados para o Grupo Reciclart, formado por coletores de lixo, que percorrem os bairros a bordo de uma Kombi recolhendo o que pode ser reciclado.

NÚMEROS EXPRESSIVOS

Em três anos de programa, as instituições conseguiram recolher e destinar 20 toneladas de recicláveis que seriam descartados em aterros sanitários. Por isso, a coordenadora afirma que “o projeto de Garça serve para mostrar que é possível, que não é nenhum bicho de sete cabeças; que sirva de exemplo para outras instituições e outras empresas”.
Em três anos, 20 toneladas de recicláveis deixaram de ir para os aterros
No caso dos resíduos orgânicos, a grande surpresa: lembrando do boi, também tudo se aproveita. As sobras das cantinas e podas de árvores, além de estercos de animais vão para a compostagem e são transformados em adubo. O chorume, um grande problema porque é extremamente poluente, vira fertilizante e irriga as pastagens e campos nas duas unidades. Em Garça, o programa gera de 1.500 a 2.000 quilos de adubo por mês.

E as boas notícias não terminam aí: “Esse material ia todo misturado para o lixo comum, para o aterro. Os recicláveis vão para recicladoras e viram outros produtos; os orgânicos se transformam em adubo usado nas fazendas da instituição. No curso de agronomia e engenharia florestal, aproveitamos a experiência como fonte de pesquisa tendo sido publicados vários artigos científicos e trabalhos de conclusão de curso de alunos da agronomia com a compostagem”, observou.

ESTRATÉGIA

Uma das estratégias utilizadas foi a separação por cores: “Tudo que é reciclável vai para o saco azul e é depositado na lixeira azul; orgânico é verde e o não reciclável vai no saco preto. Então, os funcionários tiram o lixo dos setores e levam para casinhas construídas como locais de armazenamento temporário ao longo do campus. Os sacos de cores diferentes facilitam porque os funcionários já sabem o que tem em cada um. Um funcionário passa com o trator, uma vez por dia, e faz a coleta”, detalhou.
As cores ajudam a identificar o lixo: cada coisa em seu lugar
Segundo Suzana, “em Marília temos os contêineres em que são depositados os sacos de lixo. Também foi construído um barracão que terá uma estrutura de visitação para educação ambiental. A ideia é levar escolas, empresas para visitar e conhecer o trabalho como uma forma de estímulo, mesmo. Ao lado do barracão funciona a compostagem. Todo o lixo orgânico gerado durante as aulas do curso de gastronomia na Cantina, Restaurante Pedagógico e Confeitaria é transformado em adubo, que é utilizado nos campos do novo Complexo Poliesportivo do Grupo FAEFf e nos jardins do campus.

A coordenadora destacou que “tudo foi feito de acordo com a lei: o piso impermeabilizado tem canaleta para captação de chorume que é armazenado em uma caixa e depois utilizado como biofertilizante. Em Marília, o chorume é colocado em uma bomba pulverizadora para irrigar o campo de futebol. Em Garça foi adquirida uma chorumeira que é levado para o campus para irrigação das pastagens”.
Adubo orgânico e biofertilizantes, a partir do lixo, vão para plantações.
Suzana fala com visível entusiasmo dos resultados em tão pouco tempo, destacando os ganhos com a formação dos alunos, futuros profissionais: “No curso de publicidade, os alunos vão montar uma campanha com vídeos e banners para sensibilizar e conscientizar a todos sobre a importância da separação dos resíduos. Já lançamos uma campanha contra o copo descartável durante o Simpósio Científico que acontece todos os anos e periodicamente outras campanhas serão lançadas. Os alunos da engenharia civil estão trabalhando o tema gerenciamento de resíduos da construção civil, vamos envolver os alunos do curso de administração com a destinação e venda dos materiais recicláveis. A ideia é  desenvolver projetos relacionados ao assunto para cada curso. E os alunos estão se envolvendo e se engajando na causa”.

A transformação envolvendo as duas instituições salta aos olhos: “No caso dos funcionários, a gente vê uma mudança de comportamento. Os que eram resistentes, hoje são aliados. Levam o lixo reciclável de casa para a faculdade. Há alunos querendo se especializar nesta área, como duas alunas da veterinária. Uma fez TCC de Gestão de Resíduos Hospitalares usando os dados da nossa implantação. E outra está procurando curso de mestrado nesta área, fez estágio comigo e educou a família inteira que agora separa os recicláveis. Aos sábados, ela vai com o namorado em uma caminhonete para Garça levar os recicláveis”, revelou.
Lixo orgânico na composteira


Neste sentido, Suzana manifesta seu otimismo: “As pessoas mudam se você educá-las e conscientizá-las. É possível ter uma mudança de hábitos”.

FUTURAS GERAÇÕES

Com um currículo invejável, que inclui trabalhos para grandes empresas como a Petrobrás, Suzana Más Rosa tem outro bom motivo para acreditar neste projeto: o filho Kauã. “Acho muito importante servir de exemplo pro meu filho, desde as pequenas atitudes dentro de casa, separar o lixo, economizar água e envolvendo meu trabalho como professora e ambientalista”, assinalou.

Ela finalizou lembrando que seu trabalho “é cuidar do meio ambiente pensando, principalmente, nas futuras gerações. Então, meu filho está incluso neste pacote. Ele já ajuda a separar o lixo, ele acompanha meu trabalho, está sempre junto, e tem uma consciência diferenciada. É uma maneira de fazer com que isso tenha continuidade
depois dele”.

Suzana e o filho Kauã: pensando no futuro
Para saber mais sobre as instituições, acesse: www.faip.edu.br e www.faef.edu.br. O contato da Suzana Más Rosa é nuema@faip.edu.br

2 comentários:

  1. Como entrar em contato com o Grupo Reciclart ?

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  2. Olá, Nelice! Seja bem-vinda ao blog.
    O contato da Reciclart Marília é 996648215 (Sr. Angelo). Um abraço e volte sempre!

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