domingo, 18 de fevereiro de 2018

EM BUSCA DE PARCEIROS, MÉDICA QUER ZERAR FILA DE ESPERA DE PRÓTESE OCULAR.

Por Célia Ribeiro

O rosto de menina, emoldurando os olhos que sorriem facilmente, transmite paz. Mas, esconde uma força impressionante. Uma das poucas médicas especialistas em Oncologia Ocular do Estado de São Paulo, a mariliense Drª. Simone Ribeiro Araújo de Almeida, colocou para si um desafio e tanto: zerar a fila de 54 pacientes de Marília e Região que aguardam uma prótese após terem removido o globo ocular.
Drª Simone em casa: momento de descontração
Esses pacientes, incluindo seis crianças, convivem com a espera de uma boa notícia, alguns há quase seis anos. Isto porque, usuários do SUS (Sistema Único de Saúde), aguardam na fila da Fundação Oncocentro da Capital, que atende o Estado inteiro, porque não têm recursos para adquirirem a prótese que lhes dará qualidade de vida.

Embora o câncer não seja o único responsável pela remoção do globo ocular --- há casos de traumas, como acidentes de trânsito ou brigas; infecções graves etc --- a doença tem uma baixa incidência. Por isso, a dificuldade de dar visibilidade aos milhares de casos silenciosos: quem tem um olho só prefere o isolamento, o recolhimento social, como se não existisse.
Pacientes recuperam a auto-estima
Mãe de quatro filhos, incluindo duas meninas que seu coração recebeu no ano passado, a Drª. Simone não aceita assistir, de braços cruzados, o sofrimento de tanta gente. Tratou de correr atrás de uma empresa para fornecer, a um custo reduzido, as próteses necessárias aos 54 da fila de espera. Foi mais além: participou de uma capacitação em São José do Rio Preto, e está apta a realizar no seu consultório, em Marília, a adaptação das próteses sem que os pacientes necessitem de encaminhamento à Capital.

RAIO DE SOL

Para o mutirão que vai devolver o colorido da vida a adultos e crianças de Marília e região, a médica explicou que serão necessários R$ 64.800,00. Este é o valor mínimo para adquirir as próteses e custear parte dos materiais para os procedimentos que serão realizados nos finais de semana. Ela acredita que, em 30 dias, será possível atender todos os casos, a maioria com cinco anos de espera.
Drª Simone na reunião com Rotary Club de Marília Pìoneiro
ao lado da presidente Angela Giovanetti Teixeira e Vice Sandra Craveiro
Sensível, ela observa que o caso das crianças chama mais atenção. “Saiu na imprensa, recentemente, o menino que tinha um olho só e sofria bullying na escola. Um dia, não aguentava mais ser chamado de caolho, agrediu um colega de escola até matá-lo”. A médica coleciona histórias de antes e depois de pacientes que tiveram um ganho expressivo na qualidade de vida com a prótese.
Há vários tipos de prótese no mercado
(Foto: Reprodução Internet)

Um dos casos foi de uma jovem muito bonita e vaidosa que, após a remoção do globo ocular, entrou em depressão, desenvolveu anorexia, não comia mais, emagreceu 20 quilos em dois meses e precisou ser hospitalizada. Ela relatou que em contato com o marido orientou-o a sair do hospital direto para São Paulo para colocar a prótese que, como esperado, devolveu à paciente a vontade de viver.

A Dra. Simone contou que a Oncologia Ocular “foi meu início na Oftalmologia, minha especialidade mãe”. Ela é uma das 25 especialistas na área no Brasil. Desde 2002, ela é docente na Faculdade de Medicina de Marília (Famema), onde atende 62 municípios no Ambulatório de Oncologia Ocular. Da mesma forma, na Santa Casa de Marília, ela responde pelo ambulatório SUS da especialidade.

Convivendo com duas realidades tão distintas, uma vez que mantém seu consultório com atendimento particular e para convênios, a médica resolveu colocar em prática o sonho de oportunizar a reabilitação com prótese a quem não pode pagar: “Eu sempre tive a intenção de dar acesso ao serviço que atendo no consultório para o SUS”, afirmou, acrescentando que o Projeto Raio de Sol, que funcionará em seu consultório, é o primeiro passo.
Drª Simone com marido Dr. Marcelo
e filhos Pedro, Sara, Kele e Fernanda

“Veio a ideia de buscar parceiros para que a gente possa oferecer as próteses para esses 54 pacientes. Vou começar a adaptar em Marília as próteses da PPO, empresa de Rio Preto, que atende no Instituto dos Cegos e que desenvolveu um sistema super legal que fui lá fazer a capacitação. Conseguimos um valor de custo mais baixo e mínimo de materiais para buscarmos parceiros que financiem o projeto”, assinalou.

A médica apresentou seu projeto, inicialmente, ao Rotary Club de Marília Pioneiro: “Eles me receberam super bem e ficaram entusiasmados. Mas, como não é um projeto de baixo custo, eles também precisarão de parceiros para nos ajudar”, explicou.

CONFIANÇA

A médica, que concedeu a entrevista ao Jornal da Manhã e ao blog Marília Sustentável, com exclusividade, informou que vai procurar junto à iniciativa privada, clubes de serviço e entidades empresariais, o apoio necessário para tirar o projeto do papel.

Com uma relação imensa de casos para ilustrar, a jovem oftalmologista é movida pela luz que irradia daqueles que cruzaram o túnel escuro da depressão e da baixa autoestima: “Quem consegue a prótese recupera a vida. A gente percebe que é uma diferença muito grande. Quem não consegue entra numa tristeza muito grande. Para a recuperação emocional do paciente a colocação da prótese é fundamental. A pessoa retoma o colorido da vida”, finalizou.

Para saber sobre próteses oculares, acesse: http://ppodigital.com.br/ E para contatar a médica Dra. Simone Ribeiro Araújo de Almeida para conhecer melhor o projeto e apoia-lo, escreva para: sralmeida05@gmail.com 


* Reportagem publicada na edição impressa do Jornal da Manhã, edição de 18.02.2018

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