domingo, 24 de março de 2013

RECANTO MINEIRO: CASAL DE SERTANEJOS REALIZA O SONHO DE PRESERVAR SUASRAÍZES EM CONTATO COM A NATUREZA.

Por Célia Ribeiro

Nem bem amanheceu quando os galos cantam no terreiro. Como os primeiros acordes de uma sinfonia, esses sons vão, pouco a pouco, despertando a natureza adormecida. Na pequena propriedade de sete mil metros quadrados, no entorno de Marília, o fogão à lenha já está aceso e o aroma do café passado no coador de pano mostra que nesta casa a vida segue como antigamente. Mas, com muita qualidade.

Galinha caipira com palmito: iguaria que
 dona Laurinda faz como ninguém
O “Recanto Mineiro”, como é conhecido pelos vizinhos do Condomínio Santa Bárbara,tornou-se uma reserva natural com espécies nativas de árvores nobres trazidas das inúmeras viagens do ex-caminhoneiro João Urbano de Sá, o “Seu Gelson”, ao longo dos últimos 14 anos. Na semana passada, o Correio Mariliense contou a primeira parte da história deste cearense que passou sede no sertão nordestino e hoje vive cercado de água, nos tanques de peixes que construiu, e pelo aproveitamento da água da chuva em caixas que armazenam seis mil litros na propriedade.

Mudas de espécies nativas foram trazidas do Brasil inteiro: ipê branco e amarelho,
jacarandá, mogno, jatobá, peroba rosa, macadâmia, frutíferas etc.
Ao lado do “Seu Gelson”, a mineira Laurinda Maria de Sá, com quem está casado há 40 anos, é tratada como eterna namorada. Juntos, sofreram as dificuldades da vida na roça,no interior mineiro, os desafios da cidade grande quando arriscaram a sorte em São Paulo e a mudança para o Mato Grosso, em busca de uma vida melhor.
 
Verduras e legumes orgânicos: qualidade de vida
Pais de 04 filhos e avós de 08 netos, dona Laurinda e João Urbano dedicam-se ao cultivo de alimentos orgânicos (frutíferas, hortaliças, legumes, feijão, cana-de-açúcar,café, milho etc) para consumo próprio. No local que construíram com muita dificuldade, aproveitam a aposentadoria em harmonia com a natureza, pescando nos tanques de curimbas, pacus e tilápias, cultivando orquídeas e preparandoreceitas caseiras de pães, doces, biscoitos, assados etc, com que recebem familiares e amigos.

 
UMA CASA EM VOLTA DA COZINHA

Frutas colhidas na hora
A tranquilidade do lugar só é quebrada quando chega alguma visita. Invariavelmente,ninguém vai embora sem provar algumas das delícias de dona Laurinda, como a galinha caipira preparada lentamente, com palmito colhido na hora, no fogão à lenha posicionado no meio da cozinha de quase 40 metros quadrados. Na verdade, João Urbano contou que este foi um pedido da esposa: “Fizemos primeiro esta parte com a cozinha e depois o resto da casa”.

Imrã e sobrinha de dona Laurinda ajudam
na hora de preparar os biscoitos caseiros
Do tempo em que morou no bairro “Chico Mendes”, dona Laurinda se lembra da cozinha muito pequena da moradia simples, assinalando que seu sonho era ter uma casa maior,onde a cozinha fosse o cômodo principal. E assim se realizou. As bancadas com eletrodomésticos estão lá para o caso de necessidade. Só que dona Laurinda passa a maior parte do tempo no fogão à lenha que ocupa o centro da cozinha com sua chaminé invadindo o telhado para espalhar a fumaça bem longe.

Prendada como toda mineira que se preza, dona Laurinda faz maravilhas também no forno de barro. Caprichoso, João Urbano mandou construir o forno do lado de fora da casa, garantindo uma abertura para o interior da cozinha. Assim, o “Recanto Mineiro” tem um forno embutido capaz de assar duas leitoas de 12 kg cada,simultaneamente!

Familiares sempre visitam o casal
Com tanto a fazer na propriedade, dona Laurinda e João Urbano dividem as tarefas. Ocasal cumpre uma rotina normal de quem lida com a terra, mas com muito critério. Por exemplo, antes de implantar as estufas de hortaliças, dona Laurinda fez um curso no SESI com a professora e paisagista Kazumi Takeya, já entrevistada pelo Correio Mariliense e que faleceu em março de 2012.

Pescaria garantida: pacus, tilápias e curimbas
Da produção orgânica de hortaliças, dona Laurinda emendou um curso no outro: horta caseira,paisagismo, fruticultura, produção de orquídeas, bonsai (mini árvoresjaponesas), bijuterias com sementes, sacolas de papelão e até pintura em seda. “A Kazumi era uma irmã para mim. Ela veio muitas vezes aqui e nós fizemos algumas viagens como quando fomos para Londrina visitar um orquidário”, comentou saudosa da amiga professora.

CARTAS DE AMOR

“Ganhei uma mineira que não tem preço. Pequena no tamanho, mas grande no coração”, declarou-se o apaixonado marido a quem Laurinda chama de “Gelson”. Aliás, este era para ser seu nome, mas um parente que teve filho primeiro apossou-se da ideia e o bebê foi registrado como João Urbano. A família do cearense, no entanto, manteve como apelido o nome preferido e “Gelson” tornou-se quase oficial.

Beijo apaixonado: como na adolescência
Na cozinha espaçosa, sentados à mesa que comporta toda a família, dona Laurinda e “Seu Gelson” não se cansam de contar sua história de amor. Entre troca de beijos,como adolescentes apaixonados, eles mostram as cartas que trocaram na juventude. Amareladas pelo tempo, acondicionadas numa caixinha de madeira, as cartas de amor são a parte visível do sentimento puro que uniu a mocinha de 16 anos com o sertanejo alto e forte.
 
As cartas são guardadas há 40 anos
Quis odestino que os dois se encontrassem num tempo de dificuldades para que sonhassem juntos e transformassem em realidade a vida que desejaram ter: em meio à natureza, fruto do trabalho duro e honesto e, assim, pudessem envelhecer juntos,abraçados, trocando juras de amor!

Para ler aprimeira parte desta reportagem, clique aqui


* Reportagem publicada na edição de 24.03.2013 do Correio Mariliense
 

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