domingo, 3 de abril de 2011

PASTORAL DA SOBRIEDADE: USUÁRIOS DE ÁLCOOL E DROGAS BUSCAM NA FÉ A FORÇA PARA SOBREVIVEREM

Por Célia Ribeiro

Movimentada por natureza, a avenida Castro Alves registrou um pequeno congestionamento na altura da Praça São Miguel, pouco antes das 19hs de quinta-feira. Era noite de confissão coletiva dos católicos em preparação para a Páscoa. No interior da igreja, vários padres se posicionavam para atender centenas de fiéis. Enquanto isso, um grupo de leigos se acomodava para ouvir outro tipo de confissão bem ao lado, no salão paroquial.


Grupo se encontra às quintas-feiras na São Miguel

Em formação, há cerca de dois anos, a Pastoral da Sobriedade, coordenada pelo aposentado Francisco Augusto Pereira Neto, promove reuniões todas as quintas-feiras na Igreja São Miguel, das 19h30 às 21h30. O objetivo é acolher ex-usuários de drogas e álcool e suas famílias, dando-lhes apoio espiritual a partir da palavra de Deus. A meta é organizar pastorais no maior número possível de igrejas.

No grupo da última quinta-feira, estavam presentes três ex-dependentes químicos, além de pais e mães de filhos que ainda lutam para se libertarem do vício. Em comum, histórias de dor e a fé inabalável em Deus que lhes garante suporte para enfrentarem as consequências devastadoras que o álcool e as drogas provocam nas famílias.

A reunião começou com as boas-vindas, seguida de orações e cânticos, numa espécie de preparação para o que viria: aos 36 anos, dos quais 26 dedicados a todo tipo de drogas, um rapaz em recuperação se apresentou para dar um testemunho e contar sua história. Desde a internação no orfanato, onde teve o primeiro contato com a maconha, até seis meses atrás, Maurício Barros (nome fictício) viveu uma sequência de crimes no submundo da marginalidade com direito a prisões e viagens internacionais a serviço do tráfico.

O COMEÇO DE TUDO

Maurício (de costas) e o coordenador
“Eu era um garoto muito tímido. Ficava com vergonha dos colegas da escola que tinham família e iam pra casa depois da aula, enquanto eu tinha que voltar para o orfanato. Nos fins de semana, o pessoal que ia jogar bola levava maconha pra lá. E foi com 10 anos que fumei, pela primeira vez”, começou a desvendar seu passado diante do grupo em completo silêncio.

Maurício contou que ao sair do orfanato foi viver com a família, mas já estava viciado. “Fumava todo dia”, disse. Com a adolescência veio o primeiro amor. Ele ficou noivo, casou-se, mas a droga foi mais forte e, um ano depois, a separação. “Como era jovem, tinha pique para aguentar o ritmo e me drogava todo dia. Da maconha, conheci a cocaína que era meu gás para começar o dia e para dormir e depois o crack”.

Separado da esposa, Maurício mergulhou ainda mais fundo nas drogas: “Inalar já não dava o mesmo barato e comecei a injetar cocaína”, revelou com o olhar fixo num ponto imaginário. E essa fase pesada cobrou o preço da desestruturação familiar. Ele começou a roubar tudo da casa dos pais para vender nos pontos de droga.

Desesperada, a mãe conseguiu interna-lo pela primeira vez. Foram dezenas de internações em clínicas públicas e particulares. E a cada período de sobriedade seguia-se outro muito pior de submissão ao inimigo poderoso que controlava sua mente e seu corpo: “Quando eu estava limpo e conseguia um emprego, ficava desesperado quando recebia o pagamento. É que, na maioria das vezes, eu pegava o salário inteiro e levava pra favela da Vila Barros. Ficava trancado numa casa fumando todo o dinheiro até acabar. Só então eu voltava para a casa dos meus pais”.

PRAÇA SÃO MIGUEL

Lembranças de sofrimento na praça

 “Eu era especialista em mentir e manipular”, soltou de uma vez. Maurício conheceu o inferno sem morrer: “No período mais bravo, ficava sujo, sem tomar banho, sem fazer barba e minha mãe nem abria o portão pra eu entrar em casa. Fui morar na praça e, vocês não imaginam como foi difícil chegar aqui e ver a Praça São Miguel, onde vivi como mendigo por cinco anos”, revelou.

Na verdade, para chegar à igreja o coordenador foi busca-lo em casa e depois o levou ao final da reunião: “Ele não superou o trauma e não consegue passar perto da praça por causa das lembranças”, explicou Francisco Augusto.

Voltando ao testemunho, Maurício contou que para obter a droga era capaz de tudo. Tudo mesmo! Chegou a pedir demissão do emprego para usar o dinheiro do acerto trabalhista em drogas. Roubou, praticou sequestros relâmpagos, clonou cartões de crédito e quase matou: “Morava num hotelzinho perto da Rodoviária de Ribeirão Preto. Uma garota de programa disse que o cliente que estava com ela tinha seis mil reais. Eu me escondi no carro dele e quando ele entrou, anunciei o assalto. Como ele reagiu, dei duas facadas, roubei e entrei numa favela perto da estrada. Soube que o rapaz não morreu por pouco, porque perdeu muito sangue”.

Perambulando por várias cidades de São Paulo e de outros estados, Maurício chegou ao topo da criminalidade envolvendo-se com marginais de alta periculosidade. Viajou pela Argentina, Paraguai, Bolívia e Venezuela: “Eu ia buscar drogas para traficar e aproveitava para comprar pra mim. Era barato e podia usar à vontade, sem a fiscalização que tem no Brasil”. A justiça mandou a fatura. Maurício cumpriu várias penas e encontra-se em liberdade condicional.

Há seis meses, depois de três overdoses e um apagão por coma alcoólico, Maurício encontrou apoio num grupo de A.A. (Alcoólicos Anônimos), começou a trabalhar como servente de pedreiro e tenta a reabilitação: “Minha doença não tem cura. O programa do A.A. me ajuda a me manter limpo e a mudar minhas atitudes. Tenho muita tristeza pelo que fiz e orgulho do que conquistei. Tenho medo de perder isso, esse apoio da família, de comer com meus pais, de conversar com eles, ajudar nas pequenas coisas como arrumar a cozinha depois de jantar”, afirmou.

CURA PELA FÉ

Atentos ao testemunho de Maurício, a dona de casa Ester (nome fictício) e seu marido, o caminhoneiro Pedro (nome fictício) disseram que sentiram na pele o que a droga faz nas famílias. O casal tem dois filhos (19 e 23 anos): o mais novo é usuário de drogas e o mais velho está preso.

“A família inteira fica doente. Foi aqui que aprendemos a lidar com a situação. Eu me apego muito com Deus. Eu amo muito meus filhos e só não amo o que eles fazem”, afirmou a mãe dos rapazes. “Aprendemos que nossos filhos são doentes. Minha fé que eles vão superar é maior que a dor que eu sinto”, acrescentou.

O caminhoneiro Pedro lamentou a hipocrisia alheia: “Os vizinhos ficam comentando quando aparece Polícia lá em casa. Mas, muitos deles têm problema e escondem. Nós não escondemos, não sentimos vergonha dos nossos filhos. Tem parente que não vai na nossa casa e não quer nossos filhos na casa deles”, desabafou.

“Eu já servia a Deus muito antes disso acontecer com meus filhos”, assinalou a dona-de-casa, assegurando que não se revolta com Deus: “Este é o melhor lugar que eu poderia estar; aqui é o caminho da libertação de cada um de nossos filhos”.

Encerrando a noite, o coordenador Francisco coman'dou a oração, mas antes reafirmou que “a dependência química é uma doença que exige tratamento físico, mental e espiritual” e que as atividades da Pastoral da Sobriedade esperam apoiar as famílias e acolher todos que buscam ajuda para virarem a página e começarem uma nova história de superação. Com as bênçãos de Deus.

* Reportagem publicada na edição impressa do "Correio Mariliense" de 03.04.2011

Nenhum comentário:

Postar um comentário