domingo, 17 de junho de 2018

APESAR DO PRECONCEITO, ONG CONTA COM DOAÇÕES PARA ASSISTIR PORTADORES DE AIDS.

Por Célia Ribeiro

Pouco antes do meio-dia, as poucas pessoas que transitavam pela silenciosa Rua Maria Nunes da Silva, encravada no Jardim Cavalari, dificilmente identificariam o imóvel de número 151 como a sede de uma instituição que vem lutando, há quase 10 anos, para assistir os portadores de AIDS de baixa renda e suas famílias. O GAPA sobrevive com a ajuda da comunidade e trava uma luta árdua contra seu principal inimigo: o preconceito.
Tiago com uma das operadoras de telemarketing na entidade
Do lado de fora parece uma residência de classe média, como tantas no entorno, não fosse uma discreta placa com a sigla do Grupo de Apoio aos Portadores de AIDS. A ideia de não chamar a atenção de quem passa na rua é um dos recursos para não constranger aqueles que procuram a ONG, mas buscam o anonimato.

Quem explica é o coordenador local do GAPA, Tiago Henrique Moreira, 33 anos: “Tem gente que passa na frente, olha, vai embora e depois volta. Normalmente, são encaminhados pelo SAE (Serviço de Assistência Especializada)”. Há, também, os que telefonam, se informam e só então procuram a instituição para se cadastrarem.
Cestas básicas prontas para entrega
O SAE é um ambulatório especializado em infectologia, com equipe multiprofissional. Possui especialidade médica em infectologia, dermatologia, pediatria e ginecologia, recebendo usuários encaminhados das unidades da Rede de Atenção Básica, informou a assessoria de Imprensa da Secretaria Municipal da Saúde. O SAE oferece testagem por métodos rápidos através do CTA (Centro de Testagem e Aconselhamento), na Rua 7 de Setembro 793.

Presente em municípios do interior de São Paulo como Avaré, Bauru e Botucatu, além de Marília, o GAPA sobrevive das doações da população através do telemarketing. Os recursos são empregados na aquisição de suplementos alimentares (Ensure, Sustagem etc), cestas básicas, legumes e frutas, ajuda no pagamento de contas (água, luz, aluguel), entre outros.

“Nosso objetivo é ajudar dentro da questão socioeconômica, da necessidade da pessoa”, assinalou Tiago destacando que os assistidos não recebem ajuda em dinheiro. Ele contou que há inúmeros casos em que a atuação da entidade é essencial, principalmente quando há muitas crianças na família.

Atualmente, 17 famílias estão cadastradas na unidade de Marília recebendo auxílio mensalmente, seja com alimentos, pagamento de contas básicas, medicamentos (exceto os antirretrovirais fornecidos pelo governo) etc. Há uma fila de espera de muitas famílias ansiosas para serem integradas, mas isso só ocorre quando aumenta a arrecadação ou alguma família melhora de situação e libera sua vaga.
Profissionais do SAE em uma das campanhas sobre a AIDS
(Foto: Assessoria de Imprensa da Prefeitura)

O coordenador do GAPA explicou que ao receber os portadores enviados pelo SAE ou que chegam por demanda espontânea, são realizadas visitas nas residências para realização da triagem. Ele frisou que somente as famílias que realmente necessitam são atendidas porque a procura é grande e os recursos limitados.

PRECONCEITO

Com a experiência de quem já trabalhou no telemarketing para captação de recursos, o coordenador da ONG relatou, com muita tristeza, as histórias de preconceito e falta de humanidade: “Tem mulher que é mãe, tem vários filhos pequenos, contraiu a AIDS do marido que morreu por se recusar a fazer o tratamento, e agora é marginalizada. Como não ajudar essa família?”
A informação é o melhor remédio
Ao telefonar para as pessoas em busca de auxílio, nem sempre as operadoras do telemarketing são bem atendidas. Existem os que criticam os portadores de AIDS relacionando-os à promiscuidade sexual, mas se esquecem que há várias maneiras de contrair o vírus HIV e não apenas por relações sexuais sem proteção. Entre elas, estão: o uso de seringa por mais de uma pessoa; transfusão de sangue contaminado; da mãe infectada para seu filho durante a gravidez, no parto e na amamentação e através de instrumentos que furam ou cortam não esterilizados.
Material informativo sobre DSTs 
Em Marília, o SAE tem registrados 570 usuários HIV positivos de um total de 2.771 usuários atendidos por outras doenças. Se olhar as estatísticas mundiais, os números são alarmantes: em 2016, segundo o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) 18 crianças e 30 adolescentes foram infectados por hora pelo HIV.

Enquanto espera que as pessoas se sensibilizem ao serem mais informadas sobre o problema, o coordenador do GAPA mantém acesa a chama da esperança: “Graças a muita gente solidária estamos conseguindo caminhar. Um dia é ruim, no outro um pouco melhor, e assim seguimos atendendo as famílias que vivem um verdadeiro drama e precisam muito de auxílio”.

Para entrar em contato com a ONG, o endereço é: Rua Maria Nunes da Silva, 151, Jardim Cavalari. Telefone (14) 34138064.

domingo, 10 de junho de 2018

CAMINHO SUAVE: ROTARY APOIA PROJETO DE ALFABETIZAÇÃO DE ADULTOS

Por Célia Ribeiro

No fim da tarde de quarta-feira (06), quando a campainha tocou e os alunos começaram a deixar o colégio, em um dia como outro qualquer, no outro lado da rua, o som tinha um significado muito especial para um grupo de mulheres na faixa entre 30 e 50 anos. Dali a pouco aconteceria a segunda aula do Curso de Alfabetização de Jovens e Adultos que devolveu o sonho de aprender às trabalhadoras que interromperam os estudos ainda jovens.
Sala de aula na empresa: atenção invidualizada
Concebido pelo Rotary Clube de Marília Pioneiro, através da presidente Ângela Giovanete, em parceria com a UNESP, campus de Marília, o projeto acontece nas dependências da empresa Planet Limp, no bairro Fragata, e beneficia 14 colaboradoras do setor de limpeza, explicou a empresária e rotariana Mayra Di Manno.

Ela destacou que “a Planet Limp decidiu fazer parte do projeto tendo em seu quadro de profissionais pessoas que ainda têm o grande sonho de ler e escrever. As aulas são todas às terças e quartas, na própria Planet Limp e está sendo muito gratificante participar desse projeto”.
Mayra Di Manno

As mesas enfileiradas, fazendo as vezes das carteiras escolares, são ocupadas de modo a permitir uma boa visão do quadro negro onde a aluna bolsista do 4º ano de Pedagogia da UNESP, Lucilene Emília Fernandes Carrascosa, 36 anos, anota as atividades do dia. Ela é a responsável pela turma e fala com orgulho do trabalho: “É interessante que uma empresa privada se preocupe com seus funcionários e entenda que está fazendo um bem enorme”.

Ela destacou a importância da educação “que é um crescimento pessoal, uma construção como ser humano, algo que na idade certa não puderam aproveitar, por diversos motivos, e agora estão tendo a chance. Se cada empresa do Brasil fizesse isso, não teríamos esse problema do analfabetismo. Seria algo completamente sanado”.

Lucilene informou que a coordenação do projeto é do Prof. Dr. José Carlos Miguel (Departamento de Didática da Faculdade de Filosofia e Ciências – Campus de Marília), um entusiasta da educação de jovens e adultos: “Ele fala: não importa o lugar. Se tiver uma igreja e o pastor disser que tem uma sala e pessoas que querem estudar, e se tiver bolsistas da UNESP, eu monto uma sala de aula”.
Eliana é voluntária no curso
APOIO VOLUNTÁRIO

Também bolsista da UNESP, Eliana Batista Leite Pereira, 42 anos, sai direto da Escola Estadual Antônio Ribeiro para o curso na empresa: lá ela atua como voluntária pelo prazer de ver o crescimento das alunas. “Vi aqui uma grande oportunidade, uma experiência de conhecimento, de saber como é a vida dessas mulheres que trabalham, não tiveram oportunidade antes, e que estão abrindo mão de um tempo de sua vida para aprenderem”, afirmou.

Eliana acompanha individualmente as alunas, tirando dúvidas, assim como a titular da sala. Ela explicou que existem alunas em vários estágios: daquela que só cursou até a 2ª série, e praticamente só assina o nome, até as que chegaram ao 5º ano e precisaram parar os estudos. O curso não tem prazo para terminar. Assim que as alunas vão evoluindo são preparadas para ingressarem no CEEJA (Centro Estadual de Educação de Jovens e Adultos) para concluírem a formação partindo para voos mais altos, como o ingresso em um curso superior.
Muitos exercícios durante as aulas sob orientação da Professora Lucilene
A voluntária explicou que o curso na empresa “é para sabermos o grau em que elas estão. Tem uma que não consegue fazer a formação silábica, que tem bastante dificuldade. E justamente essa é a que nunca falta”.

Aos 50 anos, mãe de dois filhos, Sônia Zaros era uma das alunas mais animadas da semana. Ela contou que ingressou na empresa, há dois anos e meio, como auxiliar de limpeza e foi promovida a líder de equipe. Por isso, estudar significa também a oportunidade de “crescer no trabalho. Quero continuar estudando porque quero progredir na vida”. Ela parou na 6ª série.
(Esq) Lucilene e a aluna Sônia


O Curso de Alfabetização que reuniu uma empresa privada, um clube de serviços e uma universidade pública chegou como uma chance a ser aproveitada: “Isso é algo que há muito tempo eu queria fazer e não tinha oportunidade. Quando falaram sobre a aula eu fui uma das primeiras a fazer uma lista e sair atrás de quem também queria”, revelou a aluna dedicada.

Nos dois dias da semana, após a jornada de trabalho na área de limpeza, em que trocam baldes, vassouras e luvas pelos lápis e cadernos, as alunas continuam ouvindo a campainha do colégio vizinho. Mas, para elas, o som é de começo e não de fim.

domingo, 3 de junho de 2018

TRÁFICO DE ANIMAIS: VETERINÁRIO DEFENDE EDUCAÇÃO AMBIENTAL E ESTRUTURA

Por Célia Ribeiro

As estatísticas são alarmantes: anualmente, o tráfico de animais movimenta 1,5 bilhão de dólares no mundo e o Brasil responde por nada menos que 15 por cento desse negócio ilegal, segundo a Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres. Para o médico veterinário mariliense, Ricardo Cavicchioli Scaglion faltam estrutura pública para receber e tratar os animais apreendidos antes de devolvê-los ao seu habitat e investimentos na educação ambiental desde a infância.
Os viveiros foram construídos segundo normas do IBAMA
Durante 12 anos, o profissional participou de um projeto que reuniu um condomínio de alto padrão e a Polícia Ambiental com o objetivo de abrigar os animais apreendidos com os traficantes, recuperá-los de ferimentos e doenças e depois devolvê-los à natureza. Foi construída uma estrutura modelo com viveiros que recebeu, no período, cerca de 2.000 animais entre espécies exóticas e silvestres.

“Foram construídos viveiros com padrão acima do exigido pelo IBAMA, com área de isolamento em alvenaria e laje, parte de solário e espaço para que pudessem tomar sol, voar e se exercitarem”, disse, acrescentando que “95 por cento eram Passeriformes, popularmente conhecidos como passarinhos como pintassilgo, passo-preto” e aves como papagaio, tucanos, arara e maritaca, além de primatas e répteis.
Ricardo soltando pássaros  apreendidos

O médico veterinário contou que os animais capturados há menos tempo eram soltos em seguida. Já os que estavam em poder dos traficantes há mais tempo, com ferimentos, asas cortadas etc, permaneciam no local mantido pelos moradores do condomínio para serem curados, alimentados e só então eram devolvidos à natureza.

Ricardo Cavichioli lamentou a exploração comercial dos animais, citando que dos 1.897 apreendidos pela Polícia Ambiental de 2005 até o início de 2018, havia 49 espécies silvestres e 29 exóticas: “É preciso despertar para a questão do tráfico que é medonha. Precisa ter uma consciência ambiental porque isso vai levar ao empobrecimento da fauna e trazer sérias consequências porque muitos animais estão ameaçados e outros estão na lista de extinção”.

O profissional observou que a rigidez na aplicação da lei e o trabalho sério da Polícia Ambiental provocou uma redução no negócio, mas que ainda é expressivo na região. Ele comentou que esta exploração “é um negócio fácil porque tem quem compra”, alertando que a predação “provoca um desequilíbrio ao ecossistema. Fauna e flora têm que trabalhar equilibradas e se erradicar uma espécie de uma região quebra a cadeia alimentar, causando um prejuízo que levará décadas para reverter”.

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

Ricardo Cavicchioli defendeu a importância de a educação ambiental merecer um lugar de destaque na grade curricular, desde os primeiros anos das crianças. No entanto, destacou que “não adianta ensinar com foto e cartilhas apenas. Se for falar de lixo, tem que levar as crianças no aterro onde vão sentir o odor, ver o chorume borbulhando, os insetos e roedores, sabendo que se chover aquilo vai para o rio e a água vai acabar na sua torneira”.

Com relação à estrutura oficial de cuidados, ele afirmou que o governo municipal deveria dar bastante atenção para que os animais apreendidos possam ser cuidados e devolvidos à natureza em uma tentativa de minimizar os prejuízos causados pelo tráfico de animais.
Adaptação e cuidados antes de voltar ao habitat natural
Procurada sobre o assunto, a Prefeitura de Marília, através da Diretoria de Divulgação e Comunicação informou que o Bosque Municipal “possui uma estrutura para acolher e abrigar temporariamente os animais capturados pela Polícia Ambiental. Eles ficam em um Centro de Ressocialização, passam por um mini hospital e têm atendimento médico veterinário com um profissional”.
Apesar da fiscalização, há um grande mercado para os animais silvestres e exóticos.
A nota acrescentou que após o período de cuidados, os animais “voltam para o seu habitat natural conforme orientação da polícia”. A assessoria adiantou que existem “planos de restruturação do bosque, com a recuperação da pista interna, manutenção de viveiros existentes e inserção de mais programas educacionais voltados às crianças”.

domingo, 27 de maio de 2018

PROJETO DESENVOLVIDO POR MISSIONÁRIOS TRANSFORMA A VIDA DE MULHERES.


Por Célia Ribeiro

Encrustada em uma das regiões mais carentes de Marília, a Vila Real costuma frequentar o noticiário devido aos índices de criminalidade relacionada ao tráfico e ao consumo de drogas nas favelas do entorno. No entanto, quem consegue penetrar esse espaço descobre um oásis de esperança construído com perseverança pelos missionários da 8ª Igreja Batista.
As reuniões acontecem às terças-feiras à tarde
Através de um projeto social fundamentado no Evangelho, o Pastor Antônio Manhani e esposa Rita juntamente com o casal Pedro e Solange Diniz Epiphanio, têm contribuído para transformar a vida de dezenas de mulheres e suas famílias. Iniciado há sete anos, desde que o Pastor e esposa voltaram ao Brasil após vários anos no exterior, o projeto conta com o apoio dos profissionais do NASF (Núcleo de Apoio à Estratégia Saúde da Família) da USF da Vila Real.

“Viemos de Portugal há sete anos para trabalhar com o projeto e com a Igreja Batista”, explicou a portuguesa Rita com seu sotaque característico. De sorriso fácil, ela contou sobre o início da empreitada quando conheceu os profissionais da unidade de saúde “que tinham o mesmo desejo, mas não tinham espaço. Iniciamos uma parceria, através da enfermeira Juliana Carvalho Bortoleto e toda equipe, que tem sido muito importante e persistente neste trabalho”.
Os eventos reúnem dezenas de crianças na Igreja Batista
Solange disse que trabalhou na área da Enfermagem por mais de 20 anos e “tinha o desejo no coração de trabalhar e ajudar as mulheres. Quando conheci a Rita, fizemos a parceria e começamos a desenvolver o projeto”. Ciente das dificuldades em atrair a participação das moradoras do bairro, os missionários não se abateram quando fizeram a primeira reunião e apareceu só uma pessoa.

“No nosso olhar não tinha esse negócio de fazer diferente porque era só uma ou duas pessoas. Tudo o que fazemos com uma, fazemos com 30 ou 60 mulheres”, acrescentou Solange, mais conhecida como “Sol” e que, pelo visível entusiasmo ao se referir ao trabalho, justifica o apelido.
(Esq.) Rita, Pastor Antônio e Solange
ARTESANATO

Os missionários explicaram que, através de atividades como artesanato nas mais diferentes frentes (pintura, tricô, crochê, decoupage), costura, reaproveitamento de recicláveis etc, as mulheres se reúnem na igreja onde se socializam, recebem informações e caso sejam detectados problemas mais sérios, são encaminhadas à Unidade de Saúde para o atendimento psicológico.

Segundo os organizadores, muitas mulheres que chegaram depressivas tiveram um ganho na qualidade de vida. Algumas são enviadas pela própria USF cujos profissionais, sensíveis e bem preparados, percebem que o projeto social pode ajuda-las a superarem o momento difícil: “Temos uma parceria com a equipe que merece nota 10. São todos maravilhosos”, assinalou Rita Manhani.
Concentração na aula de artesanato
Solange acrescentou que há muito que comemorar em todos esses anos: “As mulheres nos dão feedback. Havia muitas mulheres com depressão, que não saíam de casa. São essas mulheres que nós queremos porque vamos trabalhar a autoestima, o respeito, mostrar que elas têm valor”.

Rita Manhani contou que, às terças-feiras à tarde, durante as reuniões do grupo de artesanato, “conversamos muito e identificamos um assunto que elas gostariam de saber mais. Uma vez por mês temos o Grupo da Cidadania” onde são proferidas palestras por convidados que abordam justamente os temas levantados pelas participantes do projeto, como saúde, legislação etc.

Louvorzão Kids: brincadeiras e evangelização
Solange Diniz observou que “tem vários locais que ensinam artesanato na cidade, como no CRAS (Centro de Referência de Assistência Social). O nosso diferencial é que entendemos que essas mulheres, às vezes, precisam de ajuda de fora e não só ali no artesanato”. As missionárias revelaram que chegaram a ir às casas de algumas para ensinar sobre organização doméstica, por exemplo. Além disso, na própria igreja, há uma sala reservada onde as mulheres podem ser atendidas com privacidade.

Com relação aos trabalhos manuais, enquanto algumas participantes são mais resistentes à rotina dos encontros semanais, outras agarram a oportunidade e fazem do aprendizado uma fonte de renda, comercializando seus trabalhos. Para as aulas, os missionários contam com doações de empresas e pessoas que se sensibilizam com a proposta. Podem ser doados tecidos, retalhos, lãs, agulhas, vidros etc.

EVANGELIZAÇÃO

Em todas as oportunidades, os missionários aproveitam para proclamarem a palavra de Deus, através do Evangelho. Seja, no “Louvorzão Kids”, voltado às crianças e que já reuniu 200 delas em uma só edição, até os encontros trimestrais em que as mulheres participam de lanches coletivos em um ambiente todo preparado para recepciona-las festivamente. Nestas ocasiões, em que todas as mulheres do bairro são convidadas, o projeto tem o apoio do Tauste com a doação dos alimentos.

“Estou no campo missionário há 35 anos e sempre trabalhei com gente excluída: em presídio, crianças de rua, imigrantes na Europa, pessoas com necessidades especiais”, afirmou o Pastor Antônio Manhani, citando João 8-32 (Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará). Ele prosseguiu dizendo que “quando olho para o ser humano, vejo corpo, alma e espírito. Creio muito em uma transformação completa através do Evangelho, através de Jesus”.
Aula de costura com tecidos doados
Deixando claro que não há imposição religiosa e as pessoas de todos os credos são bem-vindas, o Pastor destacou que “nosso interesse pelas mulheres, jovens e crianças do bairro é um interesse movido pelo amor. Cada mulher alcançada, cada jovem alcançado, cada criança alcançada para nós é gratificante porque é um trabalho árduo e muito difícil”.
Nutricionista do NASF orienta sobre alimentação saudável
O pastor lembrou que a maioria da clientela do projeto “veio de um contexto muito complicado, de violência doméstica, pobreza e rejeição. No bairro o consumo de drogas é muito grande e depois os filhos vão por esse caminho. Nosso alvo não é atingir só as mulheres, mas atingir as famílias”.
E assim, usando as tardes de terça-feira para os trabalhos manuais e os diversos eventos focados na difusão de informações e orientações, além da evangelização, os missionários seguem acreditando na importância do trabalho de formiguinha, às vezes não valorizado, mas que tem provado ser uma fagulha de luz e esperança para quem tem tão pouco e estava acostumado a isso.

Para conhecer e colaborar com o projeto, a 8ª Igreja Batista localiza-se à Rua Zoroastro Alves de Souza, 123, Vila Real. Os contatos de Rita Manhani e Solange são, respectivamente, (14) 982004424 e 997481966.

domingo, 20 de maio de 2018

PROJETO DE CIDADANIA DE ESTUDANTES DE DIREITO DESPERTA A SOLIDARIEDADE

Por Célia Ribeiro

Gratidão. É com um forte sentimento de realização que a jovem docente, criada em uma pequena cidade de 3 mil habitantes, lidera um projeto que conquistou mentes e corações dos estudantes de Direito do UNIVEM (Centro Universitário Eurípedes de Marília). Daniela Marinho, 36 anos, especialista na área Tributária, coordena o Proato – Projeto de Cidadania Proativa e Direito que desperta a solidariedade, para ajuda ao próximo, ao mesmo tempo em que desenvolve várias competências nos alunos.
Daniela Marinho: inspiração para os alunos

Iniciado há seis anos, o Proato nasceu da necessidade de levar a disciplina de economia mais próxima à realidade dos estudantes. Daniela Marinho conta que a matéria, a despeito de sua importância na grade curricular, não atraía a atenção dos seus alunos. Egressa do UNIVEM, com pós-graduação e mestrado na área Tributária pela UEL (Universidade Estadual de Londrina), ela decidiu tentar algo que despertasse o interesse dos acadêmicos.

“Criamos um evento chamado ‘Colóquio Direito e Economia’. Todos os alunos do primeiro ano de Direito participaram e cada sala tinha uma missão. O objetivo era discutirmos as mazelas econômicas na sociedade”, recordou. Conforme disse, “Adam Smith, Karl Marx e David Ricardo eram autores que eles só estudavam para a prova, mas não fazia sentido, não tinha nada com o contexto onde estavam inseridos”.

Neste primeiro evento, “as mazelas econômicas e sociais puderam ser estudadas a partir destes autores”, envolvendo os estudantes que se organizaram para criarem as mais diferentes formas de manifestação: através de peças teatrais, músicas e produção de vídeos, eles se expressaram levando para o dia-a-dia os conceitos disponíveis nas publicações dos três autores que são referência mundial em economia.
Estudante de Direito que integram o Proato: time diferenciado
“Percebi que naquele projeto os estudantes promoveram a integração, fizeram amizades, porque tinham que se reunir para elaborarem o material e ensaiarem juntos. Vimos que eles tinham condições de produzirem conhecimento e faziam isso melhor do que a gente porque o nosso modo é mais conservador, dogmático”, acrescentou a professora.

Daniela Marinho observou que “quando vimos os alunos reproduzindo questões de clássicos da disciplina, como Adam Smith, Karl Marx e David Ricardo, naquela linguagem que todo mundo conseguia entender, percebemos o potencial da arte” no sentido de envolver e prender a atenção dos acadêmicos.
Solidariedade: alunos fazem doações às entidades beneficentes

GRANDE AUDIÊNCIA

Diante da bem-sucedida experiência, com auditório lotado e plateia eclética (comunidade acadêmica, pais, alunos do ensino médio etc), “percebemos que os nossos alunos queriam mais. E o UNIVEM tem essa proposta de proporcionar mais. Os coordenadores do Curso de Direito, professores Edmilson Machado e Vivianne Rigoldi, sugeriram que pensássemos em um projeto de extensão da graduação. Daí, surgiu o Proato, em uma construção coletiva com os alunos”, informou Daniela Marinho.
O ano era 2012, “a coordenação abraçou a ideia e os alunos estavam empolgados porque sonhávamos com um Direito Diferente”, prosseguiu. Ela assinalou ter sido “uma mera interlocutora junto à coordenação a partir da conversa com os alunos. Tínhamos que ver os protocolos, o perfil da entidade etc”.
Café com Palestra: eventos mobilizam grande número de participantes
Com três objetivos principais --- Integração Acadêmica, Formação Humanista e Direito Extra Muros --- o Proato começou a ganhar forma. O “Trote Solidário”, que ao invés de receber os calouros com brincadeiras, às vezes humilhantes, apostou no envolvimento dos novos acadêmicos com a ajuda a entidades beneficentes.

Da arrecadação de cerca de 3.000 livros para formação da Biblioteca da ONG “Amor de Mãe”, localizada na zona oeste, à doação de materiais de higiene e limpeza para a ONG “Juventude Criativa”, dezenas de ações foram desenvolvidas com a participação maciça dos estudantes que marcaram seu ingresso na universidade fazendo o bem ao próximo.

Daniela Marinho explicou que ao conhecerem uma instituição como a “Amor de Mãe”, os alunos puderam entender a necessidade do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente): “É diferente falar disso só no giz, na lousa ou no PowerPoint. Agora, eles entendem porque a criança precisa de um tratamento diferenciado porque eles viram a realidade. É a formação humanista”, pontuou.

ALÉM DA SALA DE AULA

“Estudamos as mais nobres concepções do Direito e da Justiça. É muito bonito. Só que tudo aquilo fica condensado dentro da sala de aula, nas paredes frias da sala de aula. A gente fala de democracia e de cidadania. Então, o Proato tem o propósito de levar o Direito para além da sala de aula, para a comunidade. Nós temos valores a serem compartilhados com a sociedade e podemos transformar isso em uma linguagem mais próxima, através do teatro, por exemplo”, afirmou.
Logomarca do projeto

A docente comentou que “alguém disse que ‘toda palavra é ruído se não vir acompanhada de ação’. Percebemos que estamos fazendo ruído. Os professores são muito bem preparados, os conteúdos são densos, temos aula até às 23 horas. Só que ainda assim estamos fazendo ruído. Já o Proato pega toda a densidade que os alunos ouvem em sala de aula e leva para a comunidade, transforma isso em ação e as coisas começam a fazer a diferença”.

Ela citou como exemplo as apresentações sobre democracia para alunos de ensino médio nas escolas públicas, em ano eleitoral. “Os adolescentes chegam arredios, de braços cruzados. Mas, à medida em que se desenvolve a peça teatral, que utiliza vários recursos como a música”, eles se soltam. “Ao final, estão rindo e se divertindo. E fazem fila para tirarem fotos com os alunos”, contou.

MERCADO DE TRABALHO

Os alunos que participam do Proato são diferenciados e começam a ser disputados por escritórios na seleção de estagiários: “Eles são muito articulados”, explicou Daniela Marinho, destacando que a universidade “está preparando nosso aluno para o mercado de trabalho, para atuar na sociedade porque é um aluno que vai muito além da sala de aula. É um aluno obstinado que, se precisar, não dorme, não come, para concluir um trabalho”. São competências que os tornarão competitivos quando concluírem a graduação.
E por falar em preparo, as experiências no Proato contribuem para desenvolverem competências como a oratória. “O advogado precisa fazer sustentação oral. O promotor também precisa. Estamos moldando um profissional muito bem preparado para atuar no desenvolvimento de sua carreira”, frisou.
(Esq) Alunos Mohandas Sabino, Renata Zanetti e Yago Neves

ESPELHO PARA OS ALUNOS

A dedicação da docente é reconhecida por seus alunos: "Ela é uma grande profissional, viaja muito a trabalho e, mesmo assim, arruma tempo para nos atender e nos ajudar. Sempre que precisamos de apoio, ela está disponível. Isso é incrível porque a professora Daniela poderia estar cuidando do seu trabalho no tempo fora da faculdade. Mas, ela não esquece de nós e do Proato". A colocação do acadêmico Mohandas Sabino, do terceiro termo, ilustra como Daniela Marinho inspira seus alunos. Mohandas afirmou que o Proato abriu-lhe novos horizontes e o exemplo da professora Daniela inspira a todos.

HISTÓRIA INSPIRADORA

Sócia-fundadora da Marinho Advogados Associados, empresa especialista em Direito Empresarial (Direito Digital, Direito Trabalhista focado nas empresas, Direito do Consumidor também voltado para empresas, Direito Tributário e Direito Societário), Daniela Marinho carrega o mesmo brilho nos olhos que seus alunos.
Gratidão: profissional de sucesso quer devolver um pouco do que recebeu

Para entender, é preciso voltar aos anos 90 quando a menina de família humilde, nascida na cidadezinha de Arandu, com menos de 3.000 habitantes, na região de Avaré, dava mostras de sua determinação. Ela sabia que para conquistar seus sonhos teria que trabalhar duro.  Graças a um tio, servidor da Receita Federal, veio estudar em Marília tão logo concluiu o ensino médio.

Aprovada em várias faculdades de Direito, inclusive públicas, ela optou por Marília porque “teria onde dormir e comer na casa dos meus tios e contar com uma bolsa de estudos no UNIVEM”, justificou.  Determinada, em pouco tempo conseguiu um estágio na Procuradoria do INSS onde recebia um salário mínimo: “Eu me sentia milionária. Ficava com metade do valor e dava a outra metade para a minha irmã que estudava na UNESP em Assis”, recordou.

Focada, Daniela Marinho queria mesmo se especializar na área Tributária: “Ouvia as conversas do meu tio na hora do almoço e isso me encantava. Um dia, uma colega contou que o escritório em que estagiava estava contratando estagiário para a área tributária”. Com muita coragem, deixou o INSS, onde tinha jornada de 06 horas, pelo escritório em que passaria a receber meio salário mínimo e trabalhar dobrado.
Trote solidário: alunos são recebidos no ingresso à universidade
Essa decisão mudou sua vida. Daniela dedicou-se ao máximo e, ao fim de cada mês, pegava o valor do estágio e enviava integralmente para sua irmã: “Eu tinha onde comer e dormir e estava atrás do meu sonho. Não achava justo deixar de mandar o dinheiro para minha irmã que precisava muito mais”, explicou.

Todo esforço valeu a pena. No conceituado escritório “Fernandes Advogados Associados” ela aprendeu muito e pode alçar novos voos. Anos depois, fundou o “Marinho Advogados Associados” com uma das irmãs, um amigo e um primo, e atende grandes empresas, inclusive multinacionais, que remuneram o trabalho por hora.

Atualmente, o escritório conta com cerca de 30 profissionais, entre advogados, estagiários, pessoal administrativo e de apoio, em prédio próprio localizado em área nobre nas proximidades do UNIVEM, no Jardim Acapulco. “A vida foi muito boa para mim. Tive uma oportunidade neste escritório em que serei eternamente grata. Voltar para o UNIVEM como docente, e participar do Proato, é uma forma de devolver para a vida o que a vida me deu”, finalizou.

E assim, com o mesmo brilho no olhar de quando pisou na universidade, pela primeira vez, Daniela Marinho segue inspirando seus alunos não só pelo sucesso profissional alcançado, mas, principalmente, pelo exemplo de perseverança, humildade e gratidão.
Para saber mais sobre o Proato, acesse: https://pt-br.facebook.com/proatounivem

domingo, 13 de maio de 2018

“AMOR-EXIGENTE”: COM DISCRIÇÃO E SIGILO, O APOIO DO GRUPO DIANTE DE SITUAÇÕES-LIMITE.

Por Célia Ribeiro

Os ventos de outono sopravam timidamente lançando as folhas secas de um lado ao outro da rua. Era pouco mais de 19h de segunda-feira (07) quando os primeiros veículos começavam a estacionar em uma rua deserta da Zona Leste de Marília. Do seu interior, saíam homens e mulheres, de várias idades, ávidos pelo que os esperava: a reunião semanal da ONG “Amor- Exigente”.
No auditório, a palestra inicial: sigilo é essencial
Os cerca de 20 voluntários, identificados pelo colete verde, colocavam seu melhor sorriso no rosto para, entre abraços, apertos de mão e também beijos (no caso dos conhecidos), recepcionarem os quase 100 participantes daquela noite. O acolhimento generoso era apenas o primeiro sinal do que esta instituição, fundada em 1984, seria capaz de proporcionar àqueles que buscavam uma tábua de salvação.

Com sede em Campinas e presente em Marília há 27 anos, a instituição “atua como apoio e orientação aos familiares de dependentes químicos e às pessoas com comportamentos inadequados”, explica seu material informativo. Através de auto e mútua ajuda, o “Amor-Exigente” desenvolve “preceitos para a reorganização familiar, sensibilizando as pessoas e levando-as a perceber a necessidade de mudar o rumo de suas vidas a partir de si mesmas, proporcionando equilíbrio e melhor qualidade de vida”. O AE visa ajudar as famílias a superarem desafios de toda ordem.
Várias publicações podem ser emprestadas aos interessados
Com entrada franca, a ONG encontrou uma maneira criativa de obter recursos para ajudar na manutenção da sede própria, construída há alguns anos com apoio de parceiros e empresários de Marília: quem deseja contribuir chega com um bolo, um pano de prato bordado ou qualquer outro brinde para sorteio. Cada número custa apenas dois reais e, com o valor levantado nas noites de segunda-feira, são pagas despesas como água, energia elétrica, materiais de consumo, funcionária da limpeza etc. Além disso, são promovidos eventos (almoços, venda de pizzas etc) e a Prefeitura concede uma subvenção mensal.

QUEBRANDO O GELO

Na recepção aos participantes, há voluntários que enfrentaram e superaram problemas semelhantes e também pessoas que, mesmo sem problemas na família, se sensibilizam com a causa e oferecem ajuda. Todos passam por capacitações e cursos de formação de modo a darem seu melhor no desenvolvimento dos trabalhos.

Voluntário Mário César: entusiasmo pela causa
Um dos mais entusiasmados pelo “Amor-Exigente”, o voluntário Mário Cesar Vieira Marques, contou que, há cinco anos, chegou à entidade pelas mãos da saudosa Drª Lucila Costa, uma das ex-dirigentes do AE. Foi conhecer e se encantou com a proposta do grupo pela seriedade e comprometimento de todos. Atualmente, ele participa de um grupo voltado à sobriedade apoiando ex-dependentes químicos.

Toda semana, a rotina se repete: pontualmente às 20 horas, todos se dirigem a um grande auditório climatizado, com capacidade para 150 pessoas, onde assistem a uma palestra de 20 minutos. A cada vez, um novo tema é abordado e, ao final, é lembrada a máxima segundo a qual “o que você diz aqui, o que você ouve aqui, quem você vê aqui, aqui permanece”.

Sorteio de brindes
Em seguida, os participantes são orientados a seguirem para as diversas salas onde se reúnem sob a supervisão de um coordenador. Tem a sala dos que chegam pela primeira vez, quando podem se abrir, revelando a razão de terem procurado o AE. Para os que já frequentam, há os grupos de pais de filhos dependentes químicos; pais com filhos internados em tratamento para dependência química; pais de filhos que passaram pela internação; filhos que se trataram e se reúnem para manterem a sobriedade; grupo de co-dependência (o familiar salva-vidas que vive o problema e precisa de suporte), entre outros.

Uma das coisas que chama a atenção é a preocupação com a prevenção. Há dois grupos: um de pais de filhos que não passaram pela experimentação do álcool e drogas; e outro de jovens de 10 a 15 anos, que apresentam problemas comportamentais. Esse último é conhecido por “Amor-Exigentinho”.

SUPERAÇÃO

O “Amor-Exigente” coleciona centenas de histórias de luta, sofrimento e superação. Uma delas é contada por uma professora aposentada, viúva de 68 anos, que há 24 anos participa do AE. Sob a condição do anonimato, ela aceitou compartilhar sua experiência com objetivo de mostrar que é possível vencer um problema tão grave, aparentemente insolúvel, e dar esperança a outras mães.

E por falar nisso, este domingo será mais um “Dia das Mães” de agradecimento e celebração para a aposentada. Afinal, os dois filhos que a levaram a procurar o AE, quando a entidade estava começando em Marília, livraram-se do uso de substâncias químicas, concluíram a formação superior, casaram-se, tiveram filhos e são profissionais bem sucedidos.
Professora aposentada buscou ajuda 24 anos atrás: hoje é voluntária
“Busquei o AE numa fase muito difícil da minha vida. Tenho três filhos, dos quais dois eram adolescentes (14 e 16 anos) e começaram a fazer experimentação de maconha. Na época, a maconha era tida como uma droga terrível. Não se tinha, por exemplo, a presença do crack como tem hoje. Quem sabia que um filho estava fazendo uso de maconha era como se o mundo tivesse desabado”, recordou.

A professora aposentada disse que o grupo era pequeno, com poucos voluntários que se reuniam na Igreja Nossa Senhora de Fátima: “Foi lá que eu encontrei suporte para superar essa dificuldade, aplicando a proposta, as metas semanais. Eu e meu marido íamos juntos”.

Ela observou que no começo não foi fácil: “O AE é uma proposta onde você tem que tomar atitudes e para isso, primeiramente, tem que mudar seu comportamento. Até então, a gente era muito facilitador, dava tudo o que eles queriam. Éramos pais facilitadores. No AE aprendemos que precisa de limite para tudo porque tudo que é demais faz mal. Até comida demais faz mal”, pontuou.

ACOLHIMENTO

Hoje voluntária do AE de Marília, a aposentada lembrou que o que mais lhe chamou a atenção foi a receptividade: “São pessoas muito simples e todos são iguais. Não existe problema maior ou menor. Problema é tudo o que nos aflige. Nos identificamos pelo acolhimento e a proposta que, a princípio parecia difícil de ser aplicada, conforme frequentávamos percebemos que nada daquilo era difícil”.

Neste sentido, complementou: “Tudo aquilo fazia parte da vida de uma pessoa que queria qualidade de vida real, que os filhos pediam limites. Muitas vezes, a gente não quer enxergar, não tem coragem de colocar limites”. O sigilo também foi apontado como um recurso importante porque deixa as pessoas à vontade para se abrirem e pedirem ajuda.

Princípios do Amor-Exigente
Sobre sua participação como voluntária, a aposentada explicou que diante do que o AE fez por sua família, acabou se “contaminando com isso tudo. Você percebe que sua vida vai tomando um rumo diferente para melhor e por isso você vai se doando”.

Mas, em sua jornada, ela acompanhou alguns dramas. Nem tudo são flores: “Já teve muito preconceito com o AE de que era grupo que colocava filho pra fora de casa, que era grupo de drogado. Na verdade, o ponto principal nosso não é o dependente e sim a prevenção”.

Prosseguindo, ela comentou que “às vezes, a gente recebe pais com filho de 40 anos que usa drogas, mora com eles e vivem em sofrimento sem conseguirem tomar uma atitude. São idosos de 60, 70 anos. A gente faz os pais entenderem que aquele filho precisa ter uma vida própria, fazer uma escolha porque é cômodo usar drogas e continuar na casa dos pais”.

Ela afirmou que os casos de sucesso são inúmeros, com registros de “rapazes que passaram pelo AE, pela internação, recuperaram sua vida e hoje estão em cargos importantes, com trabalho e família”. Mas, infelizmente, também houve casos de perdas como de um jovem que desistiu de viver após 10 anos de tentativas de superação.

MENSAGEM PARA AS MÃES

Em alusão ao “Dia das Mães”, comemorado neste domingo, a professora aposentada deixou uma mensagem às mães: “Jamais desistam do seu problema. Nós, como mães, não podemos desistir dos nossos filhos mesmo que eles estejam no fundo do poço, presos, perdidos, talvez nas ruas. Não podemos desistir. Aqui no AE a gente sempre fala que existe uma saída e que a luz não está no fundo do túnel. A luz está na gente. A luz está em você”.

Para saber mais sobre o AE, acesse: www.amorexigente.org.br As reuniões acontecem às segundas-feiras, às 20h, no endereço: Rua Maria Angelina Zillo Vanin, 75 (no fim da Rua Santa Helena), em Marília.  Nas redes sociais, acesse: https://www.facebook.com/amorexigente.marilia/

terça-feira, 8 de maio de 2018

“PARA A MAMÃE, COM AMOR”: BAZAR NA VILA DAS ARTES REUNIU MÚSICA E ARTESANATO.

Por Célia Ribeiro

Parecia um encontro de amigos da vida toda, alguns não se viam há tempos, outros celebravam mais uma parceria. Em comum, o gosto pelos trabalhos manuais. Foi neste clima festivo que a Vila das Artes promoveu o terceiro bazar em homenagem ao “Dia das Mães”, no último sábado (05). Foram expostos trabalhos totalmente artesanais (bijuterias, estamparias, sabonetes e aromatizadores, descanso de panelas, jogos americanos, flores de tecido, bolsas, quadros, tapeçaria, rendas Renascença etc) além de docinhos e bolachinhas para presentear.
Silza Más Rosa confere os artigos em renda Renascença de Maceió

Como em todos os eventos da Vila, a artista plástica Patrícia Muller, fundadora do espaço, incluiu uma parte cultural na programação com dança e apresentações musicais. Neste ano, Kréo Fidelis fez um show com voz e violão e o grupo “Batuke do Pé” emocionou o público com números de sapateado. Para as crianças, a novidade foi a oficina de percussão com Augusto Botelho.
Judineide e Petrô trouxeram a renda Renascença das rendeiras de Maceió
No amplo espaço do conhecido “Quintal da Vila”, localizado à Rua Atílio Gomes Melo, 64, no bairro Fragata, as barracas alternavam os produtos cujo colorido atraía os olhares. E como o tempo bom ajudou, muitas pessoas foram passear com suas mães que aproveitaram para escolher algumas lembrancinhas.
Clima de encontro entre amigos
Silza Más Rosa e Nelice Rojo, que gostam de trabalhos manuais e estão sempre envolvidas com artesanato, eram algumas das visitantes mais animadas: “Eu sou apaixonada por artesanato e apesar de fazer de quase tudo estou saindo carregada com essas sacolas. Impossível ver tantas coisas bonitas e não levar”, revelou Silza. Ela comentou que “o Bazar da Vila é um lugar de reencontro em que a gente fica batendo papo embaixo da mangueira e encontra todas as amigas que gostam de artesanato”.

Toda a delicadeza das flores em tecido
Silza elogiou a variedade do bazar e a qualidade dos produtos, como “as roupas de Paula Simões, as bijuterias finas, a tapeçaria, os sabonetes e aromatizadores de Renata Genta e a renda renascença”. Aliás, as peças em renda vieram de Maceió pelas mãos de Petrô Ximenes e Judineide Toledo, que é aluna da Vila e, a convite de Patrícia Muller, trouxe os artigos confeccionados pelas rendeiras nordestinas. Petrô e Judineide vieram para Marília há alguns anos e agora pensam em trazer um pedacinho do Nordeste para a cidade. (Conheça mais em: https://www.instagram.com/beiju.ju/)
Renata e Ângela: amizade antiga
PAIXÃO

Desde muito pequena, Renata Genta expressava seu talento com os bordados que aprendeu com a mãe, Eneida Genta de Oliveira Melo (Grupo Marília Baunilha e Patch). No entanto, após formar-se em Direito e atuar na área por alguns anos, decidiu mergulhar fundo na arte abrindo um ateliê para dedicar-se, exclusivamente, à saboaria artesanal.
Renata Genta trocou o Direito pela saboaria artesanal
“Sempre amei artesanato. Aprendi a bordar desde pequenininha com minha mãe e os sabonetes foram um encontro. Larguei tudo, deixei de advogar e há sete anos tenho o ateliê onde trabalho e também promovo os cursos”, explicou.   Na Vila das Artes, sua barraca era uma das mais concorridas porque os visitantes podiam experimentar as fragrâncias e conhecer a variedade de opções para presentear. (Saiba mais em: https://www.instagram.com/renatagenta/)
Sueli Congelian levou bolachinhas que têm receita exclusiva

Falando em encontro de amigas, as flores de tecidos, bloquinhos de anotações e agendas, e vários itens de artesanato do trio Renata Pinheiro Nogueira Nicolau, Ângela Buonano e Denise Prado também chamavam a atenção pela delicadeza do trabalho: “A gente é amiga da vida toda. Nossos filhos cresceram e estudaram juntos”, explicou Renata, contando que as amigas se reuniram no início do ano para produzirem para o bazar de maio e que agora estão animadas para o bazar de Natal: “Nos aguardem”, disse, sorrindo.
Bonecas de tecido
Como em outros eventos da Vila, a parte gastronômica estava garantida: saladas, pães, sucos, doces e salgados de vários tipos fizeram muito sucesso, assim como os produtos de Sueli Coneglian: bolachinhas e pães de mel com sabor inconfundível eram uma opção diferente para presentear as mamães. “Nossos produtos são feitos com receitas criadas por nós. E o pão de mel tem uma textura diferente que sempre agrada”, explicou.

ALEGRIA

Ao final do Bazar, Patrícia Muller fez um balanço positivo: ela destacou a grande diversidade de expositores e o clima familiar que transformou o evento em um encontro de amigos: “Nossos bazares vão acontecendo de acordo com as pessoas que estão por perto. Neste ano, vieram novos parceiros, uma aluna de Maceió trouxe renda Renascença, chamei a artista plástica Denise Ferrioli que morou fora do Brasil e agora está aqui, tivemos oficina para crianças, música com Kreo Fidelis e o Batuke do Pé que emocionou com o sapateado”.

A fundadora da Vila das Artes assinalou a importância da troca entre os participantes: “A ideia de juntar as pessoas que fazem para vender os trabalhos é maravilhosa. E também os artesãos conhecerem os trabalhos uns dos outros”.
Patrícia Muller e o grupo Batuke do Pé
Finalizando, ela observou que o “Dia das Mães” tem um apelo afetivo: “Vimos que o clima era muito alegre o dia todo, com filhos que trouxeram as mães para passear. Além de mostrar os trabalhos, a gente abraça os amigos aqui. É a melhor festa do ano”.

domingo, 6 de maio de 2018

REPORTAGEM INÉDITA NESTA TERÇA-FEIRA, 08/05

Caros, excepcionalmente, o blog será atualizado nesta terça-feira, dia 08 de maio,com reportagem inédita. Domingo, dia 13, voltamos às atualizações semanais.

sábado, 28 de abril de 2018

DONA SENHORINHA AFASTA A SOLIDÃO ESPALHANDO CORES PELA CASA.

Por Célia Ribeiro

Na rua principal do Distrito de Padre Nóbrega, uma casa muito simples chama a atenção de quem por ali passa pela primeira vez. Protegida por árvores centenárias, a construção do início do século passado exibe, qual uma galeria a céu aberto, a arte de dona Senhorinha. Ninguém paga nada para admirar as paisagens coloridas pintadas em pedaços de madeira, cascas de árvores e telas reutilizadas encontradas no lixo.
Exposição ao ar livre: telas coloridas na fachada da casa simples
Aos 60 anos, Maria Senhorinha Alves Feitosa Gavioli carrega uma profunda melancolia. Seu olhar distante e a fala monossilábica, entrecortada pelas lembranças do passado, dizem muito. “Foi por solidão”, revelou diante da pergunta sobre o começo de sua jornada. Casada com um servidor público municipal que trabalha na limpeza urbana e mãe de um único filho, “que gosta mesmo é de montar em boi”, ela utiliza os pincéis para colorir seu entorno como se convidasse a alegria para dentro.


As cascas de árvores são aproveitadas
No sábado (21), às 9h30, as panelas exalavam um convidativo aroma de alho e cebola refogados para o preparo do almoço. No feriado, ela recebeu a visita de parentes a quem pediu licença para atender a reportagem e mostrar, com visível timidez, um pouco de sua criação. Cada parede da casa é forrada com as pinturas. Além disso, cascas de árvore e galhos ajudam a compor a decoração do interior.
Melancolia: dona Senhorinha pinta para espantar a solidão
O contato com a natureza está impregnado em suas origens: “Eu gosto mesmo é de mexer na terra. Quando não estou aqui, estou no pedaço de terra lá embaixo, onde faço uma horta. Todo mundo ajuda, o pessoal da farmácia dá semente, adubo, água, e vou plantando o que dá”.

Das flores rústicas que encontra pelo caminho ela extrai a inspiração para as pinceladas. Sem se preocupar com técnica ou qualidade dos materiais, o que importa para dona Senhorinha é “fazer uma flor bonita e bem colorida”. Ela utiliza tintas de tecido, as mais simples e baratas: “Não tenho dinheiro para comprar tinta boa e nem tela. De vez em quando meu marido acha umas telas ou alguém traz umas usadas. Eu pinto por cima e faço outro desenho”, explicou.
Flores por todo lado

A solidão a que dona Senhorinha se referiu no começo da conversa está muito relacionada com a perda da mãe, em 2009, quando completaria 90 anos. Ela volta os olhos para a parede repleta de fotografias da família e mostra, orgulhosa, a imagem da mãe em um quadro antigo em que as cores se desgastaram com o tempo.
Memória viva: dezenas de fotos cobrem a parede da sala
Além disso, o marido passou longo período hospitalizado em tratamento e como o filho trabalha muito, saindo antes do sol nascer da edícula que ocupa no terreno ao lado, dona Senhorinha se sente muito só. “Às vezes faço crochê. Mas, também gosto de pintar e de colocar flores por todo lado”, assinalou.
Sobras de madeira e tinta de tecido: vale tudo para pintar
Um dos poucos momentos em que esboça um sorriso é ao se referir à netinha, “que vive com a mãe no Mato Grosso”. Ela sente muito a falta da menina e contou que a parede de fotos e lembranças ajuda a aliviar a saudade. Sobre o filho, as palavras são sempre de orgulho pelo “homem trabalhador que ele é e que nunca me deu trabalho. Não bebe, não fuma, não tem vícios. Só gosta de boi”.
Dona Senhorinha e o marido João Getúlio Gavioli
Quanto ao futuro, dona Senhorinha parece conformada com a vida simples e pacata que leva. E não tem esperança em vender seus quadros: “Ninguém compra. De vez em quando, aparece alguém com uma tela pra gente pintar. Mas, é difícil. Não tenho sorte”. E assim, segue pincelando cores e criando flores para aplacar a melancolia.

Quem quiser conhecer as flores de dona Senhorinha, o endereço é Avenida Sampaio Vidal, 668, no Distrito de Padre Nóbrega.