sábado, 27 de janeiro de 2018

A PIANISTA E BAILARINA QUE VIROU PEDAGOGA USA A MÚSICA NO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Por Célia Ribeiro

Ela queria ser pianista. E conseguiu. Mas, também foi tecladista, bailarina, sapateadora, acrobata, cantora, contadora de história e atriz. Com a arte saindo pelos poros, a profissional que cruza o País atrás de alguma novidade para incrementar sua formação, desenvolve um trabalho inovador através da música na educação infantil. Caroline Alaby Manzano é a pedagoga por trás de um projeto que tem chamado a atenção de pais e educadores.
As apresentações na escola são concorridas
Aos 28 anos, mas com jeito de menina, Carol diz que nasceu artista. Desde muito cedo queria aprender piano por influência de uma prima que tocava lindamente na casa dos avós. “Eu gosto de arte desde que me entendo por gente”, conta, revelando que sua primeira matrícula não foi em pré-escola, mas em uma escola de balé. Apaixonada pela dança, ela explicou que pratica “amadoramente e nunca parei porque queria parar, foi por uma questão financeira ou de tempo”.

Carol prosseguiu afirmando que “a dança veio primeiro porque foi o que a gente teve oportunidade, eu tinha só três aninhos. Gostei do balé porque foi o que minha mãe me ofereceu. Acho que qualquer coisa artística que tivessem oferecido eu teria amado”. Paralelamente ao balé, ela queria piano e a mãe, Luciana, vencida pela sua insistência, a colocou para estudar teclado, com 8 anos. Só alguns anos depois, finalmente, ela pode ir ao conservatório, onde realizou o primeiro sonho.
Recital de piano: primeiro sonho realizado
Determinada, Carol contou que estudou “um tempão de teclado e aos 13 anos fui para o Conservatório Musical e Artístico Carlos Gomes. Aos 17 anos comecei a dar aula e foi maravilhoso porque consegui terminar o curso pagando com meu trabalho. Depois, fiquei até os 23 anos trabalhando no mesmo conservatório, que foi uma escola para minha vida. Foi o primeiro lugar em que fui professora, que descobri que eu gostava de ensinar e especialmente que eu gostava muito de ensinar criança”, pontuou.

FORMAÇÃO SUPERIOR

De família musical --- os pais, irmã e cunhado cantam e tocam nas missas da Igreja São Miguel --- Carol seguiu encantada pela música. Foi estudar técnica vocal, mas sempre explorando outras possibilidades artísticas, como o tecido acrobático de circo e o teatro. Envolvida com o Grupo de Jovens da igreja, ela desenvolveu vários projetos em que unia sua fé e a arte.
Café com Música: presença em eventos culturais
Chegando a época de optar por um curso superior, ela revelou o temor de “estudar música ou dança, apesar de ser o que eu queria. Na época, 10 anos atrás, não tinha tantos cursos de educação musical como tem hoje, não era muito comum as pessoas fazerem música e dança; pelo menos não na minha realidade. Era uma coisa muito distante. Eu pensava o que vou fazer? Vou passar fome com isso”.

O curso de Pedagogia, na UNESP de Marília, mostrou-se a escolha acertada: “Não me arrependo nem por um segundo, me identifiquei muito. Se quero ensinar, por mais que seja arte, eu tenho que ser pedagoga, tenho que saber sobre o desenvolvimento infantil, como a criança pensa, entender a criança para eu poder ensinar. Quando eu saí da pedagogia, falei que queria fazer alguma coisa na educação musical”, recordou.
Tecido acrobático circense: experimentação

Carol revelou o sonho de ter um espaço próprio “para ensinar arte para as pessoas. Na época que eu entrei na faculdade foi sancionada a lei da volta da música nas escolas e fiquei super empolgada, fiz TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sobre isso e comecei a procurar pós-graduação, mas era tudo longe. Inscrevi-me em Bauru duas vezes e não abria turma até que surgiu a oportunidade de uma pós-graduação em pedagogia da dança e do teatro”.

E foi neste período, na USC-Bauru (Universidade do Sagrado Coração), em contato com  artistas profissionais e amadores, que Carol consolidou a crença de que podia seguir adiante com seu projeto. Com a energia das pessoas determinadas, a jovem percorreu o País atrás de cursos de aperfeiçoamento. E como uma coisa leva à outra, chegou ao “Música e Movimento” do consagrado educador musical Uirá Kulhman.

A DESCOBERTA

“Neste curso conheci muitos educadores e não parei mais de ir para São Paulo. Descobri uma abordagem nascida na Alemanha dentro da educação musical que se chama Orff Schulwerk, que traz uma proposta que me identifiquei porque tinha muito a ver com o que escolhi pra mim como pedagoga, que acredita na criança, que a criança é protagonista, que dá a possibilidade da criança se desenvolver a partir de estímulos. Você não dá a coisa pronta”, explicou.
Cacareco: música e contação de história que atraem as crianças

Carol se encantou com o mundo que se descortinava à sua frente: “Inverti. Antes eu ensinava piano, ensinava a criança a ler e a escrever música. Agora eu ensino as crianças a serem música e a sentirem a música”, contou com indisfarçável emoção. Professora dos alunos de educação infantil do Colégio Cristo Rei, Carol afirmou que a educação musical reflete no desenvolvimento e no aprendizado das crianças.

Conforme disse, “existem alguns estudos feitos por neurologistas, pessoas que analisam o cérebro especificamente, que comprovam a eficácia do aprendizado musical bem feito na primeira infância, de zero a 7 anos. Nesta fase é quando tem o maior ‘boom’ de produção de células e quando a gente vai estabelecer a base do nosso aprendizado. Depois disso a gente cria pontes e conexões, mas a base forma ali. A partir daí a gente tem possibilidades ou limites”.
Balé: eterna paixão


Carol destacou que “a música ainda é muito pensada como talento nato e isso pode ser muito perigoso, pois quem acredita que tem o talento pode pensar que não precisa estudar porque é talentoso e quem acredita não ter pode pensar que não vai aprender porque não tem talento. O Orff traz uma visão de que todo mundo é musical e pode aprender música. Pode não se tornar um Mozart, viver de música, mas pode se alimentar do benefício que essa vivência traz”.

Sobre seu trabalho no colégio, Carol explicou que “a gente oferece a música enquanto estímulo pensando que ela é uma linguagem. Pensando nisso, precisa estar imerso nela, como quando se aprende inglês em que os alunos ficam imersos na sala de aula onde a teacher só fala inglês. Para aprender essa linguagem tem que estar imerso nela. Ofereço a oportunidade de imersão coletivamente na maior variedade de composições sonoras e quase sempre cantadas por mim. Na escola faço esse trabalho”.

GRANDE PASSO

Com o apoio dos pais, Luciana e Sandro Manzano, a pedagoga multifacetada se prepara para um voo mais alto: “Chegou a hora de realizar meu sonho e de abrir minha escola. Pretendo atender a primeira infância, fazer grupos de musicalização a partir de 6 meses até 7 anos acreditando nestes benefícios que vão além da música. A intenção da minha escola vai para além da formação musical, mas trabalhar com tudo o que a música oferece: desenvolvimento emocional, afetivo, social e cognitivo, muito completo para a vida da criança”.

Ao retornar de mais um curso, na semana passada, Carol contou sobre “um outro educador, que veio complementar o Orff, que se chama Gordon. Eu acabei de vir de Brasília onde estava em uma formação dessa abordagem. O Gordon conseguiu sistematizar a educação musical no sentido de oferecer as experiências para esse aprendizado acontecer, esses estímulos, e aí a ideia da minha escola: ser um espaço de música e movimento”.
Carol Alaby: artista multifacetada
Sensível, como todo artista, Carol quer abrir a escola em março deste ano com uma proposta ousada: “Na minha escola, apesar do coletivo embasar tudo, haverá uma atenção individualizada, personalizada. Estou reformando um espaço com acessibilidade, pensada nos mínimos detalhes”, pela irmã arquiteta Daniele Mazuti. Ela almeja que “as famílias que têm filhos com necessidades especiais também se sintam muito acolhidas e possam ocupar esse espaço. Acredito muito no potencial de uma educação que possa unir essas crianças que convivam juntas”.

AGENDA CONCORRIDA

Carol pretende seguir com sua agenda concorrida conciliando as aulas no colégio e os inúmeros eventos que faz, seja em apresentações solo com a contação de histórias ou em dupla com o ator Calu Monteiro (Cacarecos) onde coloca para fora as muitas artistas que convivem com sua criatividade em ebulição.

Para o futuro, a pequena bailarina que virou pianista profissional, pedagoga e uma infinidade de outros talentos, quer devolver um pouco do que recebeu: “Meu pais apoiaram todas as minhas loucuras financeiramente. Jamais teria conseguido fazer todas as formações se não fossem meus pais”, disse.
Carol com os pais: Sandro e Luciana
E finalizou: “Eles sempre deixaram muito claro que o que esperavam, de mim e da minha irmã, sempre foi honestidade e coerência, nunca foi posição social. Meus pais sempre me incentivaram. Eu me sinto responsável por dar essa resposta para o mundo, não só para eles. Uma pessoa amparada tem a responsabilidade de ser muito inteira. Isso que faz o mundo ser um lugar melhor para viver”.
Para se comunicar com a pedagoga o e-mail é: carol_alaby@hotmail.com

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