domingo, 1 de abril de 2018

RENASCIMENTO: PASTORAL DA SOBRIEDADE ACOLHE FAMILIARES DE DEPENDENTES


Célia Ribeiro

Ao despertar, seu primeiro desafio é manter-se forte para atravessar mais um dia e ainda estender a mão àqueles que precisam de ajuda para permanecerem sóbrios. Leandro Pereira de Castro, 35 anos, divorciado, passou metade da vida sob a dependência química. Ex-usuário de cocaína, que conheceu na juventude, está recuperado há três anos e hoje dedica-se a ajudar quem luta para superar a dependência.
Coordenadora Diocesana, Vanda Ramos, na sede da Aurora Boreal
Leandro encontrou na Pastoral da Sobriedade da Diocese de Marília a força para virar o jogo, encarar seu vício e vencer. Guerra silenciosa, é feita de muitas batalhas que precisam ser travadas uma a uma. “Eu fui usuário de cocaína desde os 15 anos. Passei pela comunidade terapêutica e quando saí precisava de apoio para não recair. Foi quando encontrei a Pastoral da Sobriedade. Hoje, trabalho como monitor na Vida Nova e faço parte da Pastoral”.
Vida Nova: Leandro virou o jogo

De fala mansa, medindo as palavras, Leandro explica que “o maior desafio é a pessoa admitir a dependência e buscar ajuda. Não adianta os outros falarem. A pessoa tem que aceitar que é doente e precisa de ajuda. Foi assim comigo”, frisou. Por isso, ele valoriza tanto seu trabalho na comunidade terapêutica: quer ser exemplo para os que estão iniciando a jornada.

Exemplos como o de Leandro, felizmente, têm aumentado. Muitos ex-dependentes (álcool, drogas, cigarro, jogos, internet etc), após passarem por tratamento, decidem devolver um pouco do que receberam e participam de cursos de formação tornando-se agentes nos diversos grupos da Pastoral presentes nas igrejas católicas de Marília.

Segundo a coordenadora Diocesana, Vanda Leite da Silva Ramos, 50 anos, a Pastoral da Sobriedade foi criada na Diocese de Marília em 2010, constituindo-se em “uma ação concreta da igreja católica que evangeliza e busca a sobriedade como um modo de vida. Através da terapia do amor, propõe mudanças de comportamento visando valorizar a pessoa”.

Com uma coleção de histórias tristes para contar, ela não disfarça a emoção ao relatar a situação em que muitos chegam à Pastoral: “Outro dia, tivemos a presença de uma mãe completamente desesperada. O esposo é usuário de drogas, a filha e o filho também são dependentes químicos. Como ela tem duas crianças pequenas, não sabe o que fazer e foi buscar auxílio”.
Curso de formação de novos agentes de pastorais em Marília
Vanda Ramos faz questão de explicar que a Pastoral atua junto às famílias e que, caso o usuário manifeste o desejo de se recuperar, o grupo se articula para encontrar uma vaga entre as comunidades terapêuticas para a internação que deve ser voluntária. Ela informou que “além de trabalhar na prevenção e na recuperação de dependentes químicos e suas famílias, os codependentes, a Pastoral da Sobriedade também atua como grupo de apoio às pessoas com problemas emocionais como ansiedade, convulsividade, depressão e outros males”.

REUNIÕES

Em várias paróquias são realizadas reuniões semanais de modo que se a pessoa perdeu o encontro da sua paróquia, pode se dirigir a outra e assim por diante. Na oportunidade, são vivenciados os “12 passos com temas bíblicos do Programa de Vida Nova que está fundamentado no Evangelho e na doutrina cristã e que acata as diretrizes gerais da ação evangelizadora da CNBB”.
Vanda com o esposo Willians, Leandro e novos agentes
A coordenadora disse que a propaganda boca a boca funciona porque, durante as missas, sempre são passados recados sobre as reuniões. E quem conhece alguma família que necessita logo trata de informa-la em um ciclo virtuoso que faz com que, a cada semana, mais e mais pessoas procurem ajuda.

Ela explicou que há o momento da partilha em que todos podem se manifestar e os agentes da Pastoral permanecem em silêncio, ouvindo os depoimentos. Caso haja familiares, procuram dividi-los em grupos separados para que tenham privacidade para exporem suas colocações sem constrangimento.

“No programa de autoajuda, as pessoas aprendem a lidar e a resolver seus problemas através da ajuda mútua. Durante a partilha das experiências de vida, os participantes conseguem identificar parte de sua própria história pelo sofrimento, pela experiência e pelos anseios dos outros”, pontuou a coordenadora.
Divulgação na missa

Ela prosseguiu informando que o grupo “utiliza o modelo sistemático para ajudar as famílias a encontrarem soluções aos abalos que sofrem quando um ou mais membros estão afetados pela dependência química, ou seja, a dificuldade de um dos membros da família é compartilhada por todos e cada um tem sua participação e responsabilidade no processo de mudanças”.

Vanda destacou que “o objetivo da reunião é tratar o problema da dependência química abrangendo o grupo familiar sem, no entanto, promover um confronto entre eles”. Catequista na Paróquia São João Batista (Jardim Bandeirantes), ela repete as frases que estão na mente de todos: “A droga é um mal e ao mal não se dá trégua” e “Pastoral da Sobriedade: fazer dos excluídos os nossos preferidos”.

EM FAMÍLIA

Esposa de Willians Ramos, coordenador da Pastoral da Sobriedade na Paróquia São João Batista, Vanda está há dois anos e meio nesta caminhada. Mas, sua dedicação é tamanha que parece veterana. Ela contou que a atuação nos grupos trouxe outro sentido à sua vida: “Às vezes, a gente se lamenta por pouco. Quando ouço o problema de um irmão, vejo que tem gente com problemas muito piores. E Deus manda essas pessoas pra gente”.

Ao mesmo tempo em que coleciona histórias tristes, ela se abastece dos resultados exitosos. “Muitas pessoas venceram. Saíram das comunidades terapêuticas e aqueles quem nem frequentavam igreja, nunca foram batizados, procuram fazer a catequese de adultos para a primeira comunhão e continuam batalhando um dia de cada vez. Temos muitos que dão testemunhos nas escolas, que falam sobre as drogas e os que são agentes de Pastorais após terem superado a dependência”. Ela frisou que todos podem participar, independente da religião, citando uma evangélica que tem frequentado os encontros.
Capacitados, novos agentes vão atuar nas Pastorais da Sobriedade
Anualmente, são promovidos cursos de formação para novos agentes. O último, realizado recentemente em Marília, contou também com representantes da Diocese de Assis. A grande dificuldade, segundo Vanda Ramos, é a falta de infraestrutura. Por exemplo, a equipe necessita de notebook, Datashow, microfone, impressora, equipamento de som etc porque sempre precisam emprestar de voluntários e das paróquias por ocasião dos treinamentos.

“Temos algumas limitações. Não podemos fazer rifa ou bingo, por exemplo, porque é um jogo. E temos pessoas viciadas em jogos tentando se recuperar. Então, nossa dificuldade é como obter esses recursos de maneira a não contrastar com nosso trabalho”, assinalou. O contato da coordenadora é: vanda_ramos67@hotmail.com

ONDE ENCONTRAR APOIO  

As reuniões acontecem à noite, uma vez por semana, nas seguintes paróquias: Nossa Senhora de Fátima – Jóquei Clube (Rua Japão, 239) às terças-feiras, às 20h; Nossa Senhora de Guadalupe – Nova Marília (Av. João Ramalho, 1150) às quartas-feiras, às 20h; Santa Antonieta (Avenida João Dal Ponte, 853), às sextas-feiras às 20h; Santa Rita de Cássia – Nova Marília (R. Fernando Nogueira Cavalcante, 115) às sextas-feiras, às 20h; São João Batista – Jardim Bandeirantes (R. Alexandre Fernandes, 442) às quartas-feiras, às 20h; e São Miguel  (Av. Castro Alves, 867), às segundas-feiras às 19h30.

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