domingo, 18 de março de 2018

Guardião da floresta: produtor agroecológico quer proteção para nascentes e cachoeiras no entorno de Marília

Célia Ribeiro

As passadas largas, com os pés descalços desviando dos galhos, convidam ao passeio pela floresta onde o visitante se encanta com a variedade de espécies exóticas. A poucos quilômetros de Marília, no Distrito de Padre Nóbrega, o refúgio formado pelo produtor agroecológico José Antonio Nigro se funde a outro paraíso: o das nascentes e cachoeiras do entorno que ele sonha ver preservadas para as futuras gerações.
Cachoeira no entorno de Marília: natureza ameaçada
Conhecido pelas pimentas, ervas aromáticas, compotas, licores e uma infinidade de produtos que saem da propriedade diretamente para as feiras orgânicas, restaurantes e consumidores fieis, Nigro é um homem do mato. Mas, também, é um homem de forno e fogão. “Nasci cozinheiro”, costuma brincar ao explicar a paixão pela boa mesa.
Todos os espaços são aproveitados para produção de mudas
Por isso, zelar pela matéria prima de seus pratos passou pelo investimento na produção própria dos temperos, ervas aromáticas, frutas, legumes e verduras. Na chácara que divide com a mãe, dona Geni, a recepção é sempre calorosa. Não faltam um delicioso bolo de milho assado na hora e um cafezinho para perfumar o ambiente.

Nigro e o pilão que fez para socar temperos
Antes, porém, é preciso deixar a preguiça de lado e percorrer a propriedade enquanto ele explica, como um professor dedicado, o nome, a origem e a utilidade de cada planta. “Temos mais de 80 tipos de ervas e pimentas e 60 variedades de frutas como cajá-manga, cajá, umbu, açaí, tomate andino, cereja, caqui, seriguela, manga, abacate, maracujá etc”, revela enquanto colhe um fruto aqui e outro ali deliciando-se ao prova-los.

As galinhas espalhadas pela propriedade disputam o acesso aos canteiros bem cuidados que Nigro protege com telas: “Soltamos as galinhas e prendemos as plantas”, brinca. Os temperos são um caso à parte: uma infinidade de opções para dar sabor e aroma às preparações dos cozinheiros mais exigentes. “Orégano, sálvia, menta, manjericão, araruta, açafrão, hibisco, arnica e todo tipo de erva que se possa imaginar eu plantei aqui porque não uso tempero pronto ou conservantes. Minha cozinha é natural”, faz questão de frisar.

EXPERIÊNCIA

Definindo-se como homem do mato, Nigro  mostrou sua flexibilidade ao trocar a terra firme pelo mar. Viveu a experiência de cozinhar em plataforma de petróleo durante o período de dois anos que viveu no Nordeste: “Trabalhava 14 dias embarcado e 14 dias em terra. Quando cheguei lá, joguei fora tudo o que era tempero pronto. Levei meus temperos, minhas ervas e o pessoal adorou. Quando fui embora eles sentiram muito e também senti porque foi uma experiência incrível”, revelou.
Dezenas de espécies presentes neste pequeno paraíso
Realizado por morar cercado de verde e lidar com a terra, o agroecologista confessa que “não aguentaria morar na cidade ou em apartamento. Se me tirar do mato, por três dias, acho que morrerei”. Atualmente, ele divide o tempo com o cuidado da horta e pomar, a produção de conservas e licores e a cozinha dos eventos em que é contratado para festas e reuniões”.
A caminho do paraíso

CACHOEIRAS E NASCENTES

Como seu dia começa bem cedo, Nigro tem tempo para explorar o entorno fazendo incursões na Área de Preservação Ambiental (APP) das imediações. E foi justamente nessas andanças que ele se deparou com as agressões ao meio-ambiente: muito lixo deixado por quem frequenta a cachoeira localizada nos fundos de um condomínio residencial.
Água cristalina direto da fonte
Sacos de lixo, latas e plástico e até restos de roupas são deixados pelo caminho: “Dá muita tristeza ver como a cidade avançou e as pessoas não têm consciência da importância da gente cuidar e preservar isso aqui. Como será para nossos filhos e netos?”, pergunta. Em sua opinião,  deveria haver fiscalização para impedir que se comprometam as nascentes de água.
Nigro recolhe um pedaço de madeira que se transformará em algum utensílio em casa
“Sempre que posso, venho até a cachoeira tomar um banho. Isso me devolve a energia”, contou o produtor que também recolhe o lixo que encontra pelo caminho. Mesmo sendo um local cujo acesso não é tão fácil, muitas pessoas descobriram esse paraíso e para lá se dirigem esquecendo de recolher latas, vidros, plásticos e todo lixo produzido.
Lixo deixado por visitantes
Nigro revela o sonho de um dia ver o local preservado e disponibilizado para a comunidade de maneira organizada. “Marília tem muitas coisas bonitas, muitos locais que poderiam atrair turismo. Mas, de qualquer jeito, isso não vai funcionar porque podem destruir uma coisa linda que é a natureza”, concluiu. Para falar com o produtor, o contato é: (14) 99803-2327.

PREFEITURA EXPLICA AÇÕES PARA PROTEÇÃO AMBIENTAL 

A Secretaria do Meio Ambiente e de Limpeza Pública, através da Divisão do Meio Ambiente, informou que está sendo realizado o cadastramento de todas as nascentes de Marília, incluindo os seis distritos e a Fazenda do Estado. Além disso, destacou o “trabalho de preservação, com cercamento das áreas e plantio de mata ciliar, no intuito de cuidar desse bem tão precioso e cada vez mais escasso, que é a água”.
Prefeitura está plantando 30 mil mudas (Foto: Assessoria de Imprensa)
Por se tratar de um trabalho de longa duração, realizado com vistorias bairro a bairro, os trabalhos ainda se encontram em fase de desenvolvimento: “Quando identificada a nascente, a mesma passa por um registro fotográfico, identificação de sua localização com as devidas coordenadas (UTM) e inicia-se o projeto para cercamento e plantio”.

A nível estadual, a Prefeitura de Marília participa do “Projeto Nascentes” onde está em busca de recursos para expansão da preservação de áreas verdes do município, aliando a conservação de recursos hídricos à proteção da biodiversidade”. Informações na internet:  http://www.ambiente.sp.gov.br/programanascentes/.
Mudas preparadas

Por fim, esclarece que “esta secretaria vem reflorestando e recuperando o córrego Caingangue, um importante afluente do rio Aguapeí. Com projeto para plantio de 30 mil árvores, esta recuperação de mata ciliar dá início aos trabalhos de  identificação e preservação de todos os recursos hídricos do município, servindo como modelo para preservação das demais nascentes”

EDUCAÇÃO AMBIENTAL

A Prefeitura informou que “também são realizadas palestras educacionais aos alunos das EMEIs e EMEFs do município, através do Centro de Educação Ambiental, localizado no Bosque Municipal, no intuito de desenvolver a consciência ambiental desde cedo em nossos pequenos cidadãos”. Na próxima semana, de 19 a 23, o Bosque Municipal receberá as escolas devidamente agendadas, nos períodos da manhã e tarde em comemoração ao 22 de março, Dia Mundial da Água.

Os moradores que desejarem colaborar com a preservação das nascentes em seus bairros, deverão entrar em contato com a Prefeitura Municipal de Marília, através do telefone 3454-3400, e falar com Cassiano Rodrigues Leite, Chefe da Divisão do Meio Ambiente, informando a localização da nascente para a devida identificação e cadastramento e posterior preservação com cercamento e plantio de mata ciliar.


2 comentários:

  1. Fantástico... não só a matéria como também o "Guardião da Floresta"... meu irmão Eduardo já havia falado sobre ele mas não de forma tão contundente... parabéns... Quem sabe um dia cruze com ele...

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  2. OLá, Leme! Seja sempre bem-vindo ao blog. Tbém gostei muito de fazer essa matéria. Precisamos de mais pessoas com essa consciência. Abraço

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