domingo, 11 de março de 2018

A CASA DAS SETE MULHERES: O EXEMPLO DE SUPERAÇÃO NA LAVANDERIA COMUNITÁRIA.

Célia Ribeiro

Pouco antes do meio-dia, com o sol a pino amolecendo o asfalto irregular do pátio, mal dava para sentir a leve brisa envolvendo as roupas no varal. Em uma espécie de balé descompassado, dezenas de roupas coloridas balançavam nos varais espalhados pelo terreno. Traziam, ao menos naquele instante, um pouco de esperança: o tempo bom e o calor são amigos de quem depende do clima para sobreviver. Entretanto, escondiam a angústia de quem enfrenta perdas diárias e segue adiante.
Roupas secam sob sol forte
Um dos principais e mais antigos projetos sociais da cidade, a Lavanderia Comunitária da Associação de Moradores do Nova Marília, localizada em frente à Paróquia de Santa Rita de Cássia, na Zona Sul, sobrevive pela perseverança de um grupo de mulheres encabeçado pela líder comunitária Laudite Ferreira Gaia Vieira.
Aparecida Fátima é uma das mais antigas
Na semana em que se comemora o “Dia Internacional da Mulher”, esse pequeno grupo ilustra a força e determinação das mulheres para encararem os desafios, sofrerem derrotas, levantarem e começarem tudo de novo. A lavanderia chegou a abrigar nove mulheres, mas apenas sete puderam permanecer porque o movimento caiu, as despesas aumentaram e os auxílios minguaram.
Nos tanques, as roupas que serão lavadas manualmente
Se nos bons tempos a lavanderia registrava um movimento de 700 a 750 quilos de roupa por semana, o número caiu quase pela metade. Atualmente, as trabalhadoras lavam e passam cerca de 450 quilos semanais. Sinal da crise econômica que atingiu o projeto duplamente: de um lado, encarecendo os insumos (materiais de limpeza, energia elétrica etc) e de outro, diminuindo a freguesia.

Embora localizado em uma região populosa, que cresce a cada dia, o projeto iniciado na década de 80 sente o peso das adversidades. Além da queda no movimento, as três máquinas (lava e seca), doadas pelo Rotary Club de Marília Leste e Empresa Mariferro, em 2014, estão paradas esperando reparos.

Máquinas (lava e seca) paradas por falta de dinheiro para os reparos
“Foi uma benção quando recebemos a doação. A gente deixou de lavar tudo na mão e passamos a usar as máquinas. Com o tempo, elas começaram a quebrar, sempre na parte do automático, e a gente ia arrumando conforme tinha condições. Mas, agora, estamos com as três paradas e sem dinheiro para o conserto que fica entre 400 e 500 reais cada uma”, relatou a presidente da Associação e coordenadora da Lavanderia, Laudite Vieira.
Ex-vereadores Capacete e Bássiga com o ex-presidente Nardi
Na época, meados de 2.014, a lavanderia foi beneficiada pelo trabalho da Câmara Municipal de Marília, na gestão do presidente Luiz Eduardo Nardi, que fomentou o apoio da iniciativa privada e clubes de serviço aos projetos sociais. O Rotary Marília Leste abraçou a causa e apoiou a lavanderia doando duas lavadoras e a Mariferro doou o terceiro equipamento.

MUITAS PERDAS

Com os olhos marejados fitando ao longe, dona Laudite conta que muitas coisas mudaram em quatro anos. Vários diretores da Associação do Nova Marília faleceram, entre os quais o grande incentivador da lavanderia, Valmir Farias. Outra morte muito sentida foi da dona Ana, que liderava a equipe, sem falar na voluntária Carmen Jorente que, perto dos 80 anos, cozinhava no local e que também faleceu.
Dona Laudite e o cliente fiel Sr. Odair

A rotina das sete mulheres é exaustiva: chegam com o amanhecer, por volta de 6 horas, tomam café, geralmente preparado pela dona Laudite, e iniciam o trabalho que só termina no fim da tarde. Lavam e passam roupas, edredons, cortinas e tapetes com preços acessíveis. O quilo da roupa comum sai por R$ 7,50 e de tapetes a R$ 9,00.

A clientela é eclética. Tem gente da redondeza, mas muitos percorrem muitos quilômetros vindos de outras regiões da cidade com o carro abarrotado de roupas que são pesadas e separadas, com muito cuidado, à vista do freguês.

E por falar nisso, enquanto faziam uma pausa para o almoço, preparado na cozinha anexa ao salão, chegou um cliente fiel: o aposentado Odair Pintan foi logo entrando para conferir o cardápio do dia. “Ele é de casa”, disse dona Laudite, abrindo um sorriso amigável. E o aposentado continuou o tom informal afirmando que “o serviço daqui é tão ruim que nunca parei de vir. E lá se vão nove anos”.

SOBREVIVENDO

Como a maior parte das famílias tem feito para equilibrar o orçamento, a coordenadora da lavanderia também se esforça para manter as contas em dia. Cada uma das mulheres participantes do projeto recebe um salário mínimo por mês. Meticulosa, dona Laudite ressalta que também é recolhido o INSS de todas para garantir a aposentadoria e o amparo da Previdência Social em uma emergência, como um problema de saúde.

Além da redução no volume de serviço, a lavanderia sofre os reflexos da interrupção da ajuda que vinha da Paróquia Santa Rita de Cássia. Parte do dízimo doado pela comunidade à igreja era revertida para o projeto. “Cortaram tudo, cortaram o vínculo”, contou, sem esconder a tristeza.
Dona Carmen Jorente: voluntária que faleceu e deixou saudade
A obra foi criada pela Irmã Dilma Lopes Coutinho, cuja fotografia continua em lugar de destaque na lavanderia. Desde o início do projeto, segundo dona Laudite, contava com o apoio da Paróquia que também contribuía com a panificadora que funciona no local e que produz pães e roscas para venda à comunidade toda sexta-feira.

“Hoje, temos quatro voluntárias na panificadora. Continuamos fazendo e vendendo os pães e o dinheiro ajuda a mantermos a lavanderia. Tem época em que a lavanderia vai melhor e daí ajudamos na panificação. E assim nós vamos levando”, explicou.

Ela reclamou do aumento de preços de uma maneira geral: apesar da lavagem manual, por falta das máquinas que estão paradas, ainda se gasta muito com energia elétrica para passar roupa. Também é preciso repor os ferros a vapor que, com o tempo, não resistem ao volume de trabalho. “Tem mês que dá para comprar um ferro. Tem mês que não sobra nada”, acrescentou.
Os pães são vendidos às sextas-feiras e geram renda para o projeto
Outra dificuldade é com a alimentação: o dinheiro da lavanderia também é usado para aquisição dos alimentos servidos no almoço. Sempre tem voluntárias para preparar as refeições simples, mas feitas com carinho, para que as trabalhadoras não precisem parar o serviço. O difícil é arcar com os custos porque elas não recebem doações de alimentos.

Uma das integrantes mais antigas do projeto, Aparecida Fátima Ferreira, mãe de três filhos, sente-se grata por ter uma oportunidade que muitas mulheres do bairro não conseguiram. A fila de espera é grande e novas vagas somente são abertas quando o movimento aumenta e se consolida. “Gosto muito daqui porque com esse trabalho sustento minha família”, disse.

A lavanderia depende do tempo: porque não tem secadoras em funcionamento
INVERNO

Sem as secadoras em funcionamento, uma nova preocupação da coordenadora da lavanderia é com a aproximação do outono/inverno. “No tempo frio fica muito difícil secar as roupas. Temos que estender tudo aqui dentro do salão quando chove. Por isso, vamos fazer de tudo para consertar pelo menos uma das máquinas”, observou.

Católica fervorosa, dona Laudite tem fé em que as coisas melhorem: “Acredito que tudo que você faz confiando em Deus Ele te dá uma resposta. Ele nunca desampara seus filhos. Então, nós estamos de pé pela fé e pela graça”.
Área de trabalho na lavanderia: preocupação com o futuro
Finalizando, ela lançou o olhar para as roupas balançando nos varais e confessou seu temor: “Minha maior preocupação é o dia em que eu não puder mais tocar isso aqui para dar continuidade ao projeto criado pela Irmã Dilma e que tantas famílias ajudou em todos esses anos”.

Para entrar em contato com a Lavanderia Comunitária do Nova Marília, ligue para: (14) 34176928. O endereço é Rua Nair Rosilio Gutierrez,65, em frente à Paróquia de Santa Rita de Cássia, no Nova Marília.

Clique AQUI para ler a reportagem feita em 2011 na Lavaderia e AQUI para a reportagem de 2013

4 comentários:

  1. Poxa vida, um projeto tão importante como este indo por água abaixo. Alguma coisa precisa ser feita para se consertar essas máquinas.

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    1. É uma pena, mesmo. Vamos ver se com a divulgação, as pessoas se sensibilizam. Abraço, Maristela. Volte sempre. (Celinha)

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