domingo, 14 de janeiro de 2018

PRODUTORES AGROECOLÓGICOS SUPERAM DESAFIOS ATÉ A MESA DO CONSUMIDOR.

Por Célia Ribeiro

O clima ameno no fim de tarde, após vários dias de chuva intermitente, foi recebido como um presente pelos agricultores presentes à Feira de Pequenos Produtores Agroecológicos de Marília, realizada na quarta-feira (10), no Espaço Cultural “Ezequiel Bambini”. Mas, a julgar pela rapidez com que a maior parte dos produtos foi vendida, saiu premiado quem chegou primeiro.
Márcia Zaros oferece licores à degustação
Com início às 17 horas, menos de uma hora depois, muitos expositores viram desaparecer os produtos nas bancas aonde cores e cheiros atraíam olhares curiosos: verduras, legumes, frutas, hortaliças, geleias, licores, queijos de leite de vaca e de cabra, conservas, doces caseiros e artesanato encantaram os visitantes.

Promovida pela Associação dos Pequenos Produtores Rurais e Urbanos de Marília e Região, o diferencial da feira era oferecer produtos agrícolas sem agrotóxicos. Com cerca de um ano de atividades, a entidade caminha para a formalização: ainda que não tenha obtido o certificado de produção orgânica, se norteia pelos princípios da Agroecologia. Ou seja, praticar uma agricultura ambientalmente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justa.
Licores à base de frutas do quintal

CONSTRUÇÃO COLETIVA

Tendo no currículo vários trabalhos de arranjos produtivos, como a horta comunitária da zona oeste de Marília, Márcia Zaros cultiva ervas aromáticas, frutas e flores no quintal de casa, no Jardim Acapulco. Eles são a base de licores botânicos e geleias, sem corantes ou conservantes, que ela produz artesanalmente e comercializa pela internet.

É ela que explica o movimento desses agricultores: “A Associação iniciou pela necessidade do consumidor ter uma feira de produtos que não usam agrotóxicos, porque para falar orgânico tem que ter selo e a gente ainda não está neste processo. Não tinha feira de produtores em Marília e é uma coisa importante, que várias cidades têm, que a secretaria local e a secretaria de Estado da Agricultura abraçam. E Marília nunca teve, muito menos nesta linha ecológica que não usa agrotóxicos”, contou.

Conforme disse, os cerca de 15 produtores de Marília, Oriente, Vera Cruz e Pompeia, das zonas urbana e rural, começaram a trocar informações e amadurecer a ideia de somarem esforços em uma entidade capaz de representa-los. A Associação promoveu várias reuniões para discussão sobre o estatuto e outros temas necessários à formalização e, diante do sucesso da feira desta semana, ganharam fôlego para seguirem adiante.
Uva sem agrotóxico para geleias

“Os pequenos produtores têm que se virar para continuarem produzindo. Eles não conseguem entrar no mercado porque eles são pequenos. Para o pequeno produtor, a venda direta é de extrema importância, no caso a feira. Hoje, os pequenos produtores, não importa se usam ou não veneno, dependem da venda direta”, observou Márcia Zaros ao defender a importância de se criar mecanismos para viabilizar a realização de feiras voltadas a este segmento.

Durante o evento de quarta-feira, Márcia Zaros afirmou, enquanto atendia algumas clientes interessadas em degustar os licores, que se surpreendeu com o movimento: “Não imaginava que fosse aparecer tanta gente de uma vez. Não tem nem uma hora que começamos e já vendemos quase tudo”. A feira estava prevista para se encerrar às 21 horas.

Márcia Zaros disse que “a Associação é uma construção coletiva. Surgiu a partir da necessidade da gente se juntar e formar forças para ver o que a gente consegue fazer junto, já que não há políticas agrícolas locais que nos ajudem e nos incentivem”. Para ela, a entidade “deveria receber apoio das secretarias da Agricultura, do Meio-Ambiente e da Cultura porque nossa feira é considerada sociocultural pois também temos a parte do artesanato”.
Doces caseiros, geleias e queijos de leite de cabra foram muito disputados
Por sua vez, o secretário municipal da Agricultura, Odracyr de Oliveira Capponi, em nota de sua assessoria, afirmou que “a Secretaria se colocou e está à disposição da Associação de Pequenos Produtores Rurais e Urbanos de Marília”, informando que a pasta “tem mais de dez projetos para a agricultura familiar em Marília”.

BANHO DE CACHOEIRA

Com o astral nas alturas, José Antônio Nigro, produtor de hortifrúti há 10 anos em uma propriedade no Distrito de Padre Nóbrega, não demora a revelar o segredo do bom humor contagiante: longos banhos de cachoeira para se energizar ajudam a recuperar o fôlego para o trabalho na terra.
À frente de uma das bancas mais concorridas, ele atendia os clientes com sorriso estampado no rosto, oferecendo geleias e conservas para degustação enquanto mostrava a diversidade de ervas aromáticas e frutas exóticas  que cultiva graças à troca de sementes e mudas com produtores de outros países.
Nigro atendeu as clientes explicando o processo produtivo
“Você conhece a Achachairú?” pergunta, oferecendo uma frutinha amarela, parecida com acerola, natural da Bolívia, com alto poder antioxidante e rica em vitamina C. Assim, deixando os clientes à vontade, ele conseguiu vender rapidamente sua produção para tristeza de visitantes como a cozinheira Jucélia Borghi.

Pouco antes das 18h ela lamentava não ter chegado no início. “Espero que tenha outras feiras porque quero chegar bem cedo, logo que abrir”, disse, enquanto escolhia algumas ervas para suas receitas. Ela elogiou a organização da feira e disse que gostaria de ver mais iniciativas como essa, de venda direta, do produtor ao consumidor, de produtos livres de agrotóxicos.
Nigro e as hortaliças que cultiva
na propriedade de Padre Nóbrega

Se depender da disposição de produtores como Nigro, esse é apenas o início de uma bela história: “Levanto cedo, por volta das 6h e já vou lidar com a horta”, contou, explicando que não tem dificuldade para escoar seus produtos seja por encomenda de restaurantes ou através de pedidos nas redes sociais.

“Nunca usei veneno. É tão fácil produzir e ficam se envenenando e pagando mais caro. Isso que é pior”, finalizou celebrando seu estilo de vida saudável que inclui o trabalho na terra, a produção de geleias e conservas e, claro, os banhos na cachoeira que ele faz questão de cuidar: “Eu também me sinto um guardião da cachoeira”, concluiu antes de se despedir e atender às clientes que continuavam chegando...

10 comentários:

  1. Estive na feira Célia e senti esta mesma energia e vontade que você reproduziu no seu texto. Além de comprar produtos mais saudáveis a gente acaba tendo muitos papos e aprendendo muita coisa nova sobre alimentos que consumimos diariamente.

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    1. Olá, Ivan! Os bons resultados dessa iniciativa devem inspirar a repetição da feira. Pelo menos, é o que a gente espera: encontrar produtos de qualidade, frescos e sem uso de agrotóxicos bem perto de casa. Estou na torcida!

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  2. Feira e seu artigo: excelentes iniciativas!

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  3. Esqueci de me identificar no comentario anterior: Antonio Primo.

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  4. Gratidão, Celia...e vamos que bamos porque a nossa segunda edição já vem aí rs..bjs

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    1. Marcia, querida, eu que agradeço pela entrevista. Estou à disposição de vcs. Bjsss

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  5. Queremos agradecer aos integrantes e ao grande publico que compareceram ao evento da feira.. foi um sucesso...parabens. A reportagem ficou otima.logo teremos a segunda...aguardem

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  6. Parabens a todos os integrantes da feira e a muitos que ali compareceram..foi um sucesso

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