domingo, 24 de dezembro de 2017

EM TERRENO FÉRTIL, PROJETO SEMEIA O FUTURO DE CRIANÇAS E JOVENS NA ZONA OESTE.

Por Célia Ribeiro

No fim de uma rua de terra batida, o terreno fértil responde brotando as sementes transformadoras que lhe são lançadas. Onde parece que a cidade termina é o princípio de tudo: uma construção simples abriga os sonhos de centenas de crianças e adolescentes, dos Jardins Cavalari e Higienópolis, assistidos pela ONG Projeto Semear Marília.
As crianças são acompanhadas no contra turno da escola
Como diz a canção “Prelúdio”, imortalizada por Raul Seixas, “sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas, sonho que se sonha junto é realidade!” Essa teoria foi provada pelo encontro de uma ONG com o trabalho de uma mulher simples, que reunia na modesta residência, além de seus filhos, sobrinhos e vizinhos para contação de história, seguida de café da manhã, todo domingo.

Mãe de três filhos, Sandra Mara Luiz Ribeiro, 38 anos, sonhava com um futuro diferente para as crianças da vizinhança no Jardim Cavalari, Zona Oeste de Marília. “Meu pai foi o primeiro morador da favela ali de baixo”, contou com olhar sereno lembrando a infância. Em seguida, como uma boa contadora de história, mergulhou no tempo para relatar como tudo começou.
Adriano, Valéria, Sandra e Breno
Em 2014, Sandra trabalhava no setor de conservação e limpeza do Hospital Universitário. Certo dia, deixando a timidez de lado, abordou Claudino Brunharoto Junior, funcionário da instituição, em busca de doação de livros para as atividades que mantinha aos domingos, desde 2011. Como um dos 12 fundadores da ONG, de pronto ele se interessou pela história daquela figura de sorriso fácil e quis conhecer a iniciativa.

Dos primeiros grupos de crianças e adolescentes, o boca-a-boca se encarregou de espalhar a boa nova como o vento espalha o pólen das plantas. Em pouco tempo, já eram quase 20 crianças cada domingo. Para preparar o café da manhã, Sandra contava com doações de amigos para o leite, uma irmã fazia bolos e assim, a cada semana, a contação de histórias atraía um público fiel.
Aula de Jiu-Jitsu
Esse foi o cenário encontrado pela direção da ONG que, desde 2010, atuava em campanhas para arrecadação e distribuição de material escolar e apoio a outras entidades para reformas de bibliotecas, espaços de estudos etc. Com mais de 150 voluntários, formando um grupo heterogêneo (de juiz do Trabalho, advogados, engenheiros, médicas, empresários a estudantes e donas de casa), a instituição abraçou a causa.

SEMEADURA

Segundo a pedagoga Valéria de Oliveira Munhoz Evangelista, “trabalhou-se durante muito tempo só aos domingos. Mas, na busca de reconhecimento e certificado inserimos as atividades da semana no contra turno da atividade escolar, porque o objetivo é a criança ir para escola em um período e ter atividade em outro”.
As atividades são comandadas por profissionais voluntários

Dessa forma, há dois anos, crianças a partir dos cinco anos e adolescentes até 17 anos têm acesso a uma programação diversificada durante a semana: Jiu-jitsu (arte marcial japonesa), balé, sapateado, dança, pintura em tecido, inglês, oficina de jogos para crianças com déficit de aprendizagem etc.

E como os brotos que se espalham em terra bem cuidada, a ONG atraiu importantes parcerias: a EMEFEI Chico Xavier avalia as crianças e adolescentes encaminhando-os para o projeto que dispõe de psicopedagogas voluntárias prontas a auxiliarem os estudantes em dificuldade. Além disso, a ONG “Psicologia e Integração Social” oferece atendimento psicológico individual a crianças e mães, durante sessões realizadas aos domingos em sala privativa construída no fundo do terreno da casa de Sandra.
Apresentação musical no evento de fim de ano
Muito organizada, a ONG Projeto Semear trabalha com escala de voluntários para a realização das atividades, explicou Valéria Munhoz: “Temos um grupo forte de psicopedagogas voluntárias do Semear que ajudam neste atendimento individual às crianças que têm dificuldade de aprendizagem. Temos psicopedagogas de manhã e à tarde, durante a semana”.

Aos domingos, mantendo a tradição, os voluntários são distribuídos em escalas com 20 pessoas para apoiarem as atividades desenvolvidas por temas. Por exemplo, o Natal, cuja culminância aconteceu no dia 17, foi o tema central que norteou os trabalhos desde novembro.

CULTIVE UM CAMPEÃO

“Através do Jiu-jitsu, do esporte, conseguimos patrocínio com empresas que pagam para o adolescente uma pequena bolsa de 250 reais por mês e uma cesta básica para a família”, acrescentou Valéria Munhoz. Para participar, o estudante não pode ter faltas e nem notas ruins na escola. Atualmente seis atletas são contemplados.

Um dos fundadores da ONG e atual coordenador geral, o juiz do Trabalho Breno Ortiz Tavares Costa afirmou que “o programa é para o adolescente que frequenta com seriedade, que treina sério, que aceita essa proposta”. O apoio vai além. Os jovens têm suporte para leitura de textos, de livros e elaboração de redações que são corrigidas pelos voluntários em preparação para o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio).
Pais e familiares se uniram aos voluintários na festa de 17 de dezembro

Ele prosseguiu assinalando que “a ideia é incentivar o adolescente a terminar o colegial e se preparar para o curso técnico ou vestibular. A ideia é pegar a criança até adolescência indo para o vestibular e o mercado de trabalho”.

SONHANDO ALTO 

A auxiliar de limpeza Kelly Borges, 42 anos, participou da festa de Natal de domingo passado com o  filho de 16 anos e uma neta de 8 anos. Para ela, a ONG “é excelente porque ocupa a cabeça das crianças. A gente percebe a melhoria, uma mudança grande neles. Meu filho, que gosta de balé, ganhou uma bolsa de estudo para uma escola da cidade a partir de 2018”.

Tales com a mãe Kelly
Ao lado, Tales Vinicius, estudante do primeiro ano do ensino médio, falou com empolgação sobre a novidade: “Esse projeto foi onde me encontrei porque aprendo um pouco de tudo”. Com a possibilidade de fazer aulas de balé com a professora Amanda Lima ele sonha realizar o sonho de se tornar um bailarino profissional.

NOVA SEDE: FINCANDO RAÍZES 

Apesar das ampliações na estrutura física, a casa da Sandra ficou pequena para as mais de 100 crianças e adolescentes assistidos. Por isso, a proposta do NEAP (Núcleo Espírita Amor e Paz) de doar um terreno, localizado nas imediações, e os recursos iniciais para construção da sede própria chegaram como uma benção. Quando estiver concluído, em meados de 2018, o prédio funcionará com o projeto da ONG Semear durante o dia e à noite receberá as atividades do NEAP.
Obras da sede própria na fase de fundação
A sustentabilidade econômica da ONG é garantida com doações da comunidade e de empresas. No site: www.apoiesemear.com.br estão as diversas formas de contribuir com a causa. E no portal da ONG, www.projetosemearmarilia.org.br, é possível conhecer a abrangência do projeto e ter acesso às prestações de contas desde 2012 em uma invejável demonstração de transparência e responsabilidade na aplicação dos recursos.

E por falar em recursos, este ano o Papai Noel chegou mais cedo com a campanha do Panetone Solidário do Tauste. A meta é chegar a 30 mil unidades, até 31 de dezembro, com renda totalmente revertida para a construção da nova sede do Semear. Neste Natal, ao levar para casa ou presentear família e amigos com panetones, todos podem colocar mais um tijolinho nesta obra.

* Reportagem publicada na edição de 24.12.2017 do Jornal da Manhã

Obs. Fotos de atividades são do site da ONG (http://www.projetosemearmarilia.org.br/)
e Fotos da comemoração do Natal são de Célia Ribeiro


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