sexta-feira, 27 de outubro de 2017

AURORA BOREAL: PONTE PARA A REINSERÇÃO SOCIAL DE MULHERES DEPENDENTES QUÍMICAS

Por Célia Ribeiro

Na ensolarada manhã de sábado, com a primavera soprando, suavemente, os primeiros ventos da nova estação, um refúgio encrustado na zona oeste de Marília teve sua habitual tranquilidade interrompida pelo badalar de um antigo sino. O som inconfundível, que fazia as vezes da campanhia, anunciava a chegada dos visitantes à Aurora Boreal, obra conduzida pelas Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de Fátima com o objetivo de reinserir, na família e na sociedade, as mulheres que passaram por tratamentos de dependência química.
O badalar do sino anuncia as visitas

Para entender a importância desse projeto, é preciso retroceder no tempo e contar a trajetória da Irmã Santa Mendes da Silva, assessora da Pastoral da Sobriedade, assessora eclesiástica da Pastoral Diocesana e presidente da obra. De sorriso fácil e olhar expressivo, Irmã Santa parece levitar em seus trajes azuis enquanto explica esse trabalho inovador.

Missionária no exterior por 28 anos, dos quais 23 anos vividos na Itália, 03 anos na Dinamarca e 02 anos em Israel, Irmã Santa retornou ao Brasil em 2.008 para trabalhar na Comunidade Terapêutica de Tupã voltada ao tratamento de dependentes químicos do sexo masculino. Durante sua jornada, preparou-se cursando Assistência Social, Filosofia e Teologia, o que lhe rendeu bagagem suficiente para o trabalho espiritual na comunidade onde também levou sua alegria e seu tempero inconfundível para a cozinha.

Em Tupã, a convite do Bispo Emérito D. Osvaldo, Irmã Santa iniciou o trabalho com entusiasmo juvenil. Mas, com o passar do tempo, foi tomada por uma inquietação diante dos quase 40 internos atendidos: “Eu estava responsável pela espiritualidade e sentia uma angústia nos rapazes quando se aproximava a saída deles. Tem os que não querem voltar para casa. E tem a família que não sabe como lidar e já deu situação de abandono”, confidenciou com o semblante fechado.
Irmã Santa (centro) preside a Aurora Boreal
Foi daquela situação que Irmã Santa acredita ter brotado a ideia da Aurora Boreal. Afinal, após passar pelas comunidades terapêuticas ou clínicas de reabilitação para desintoxicação, os dependentes químicos, tanto homens como mulheres, precisam encontrar pontes para transitarem, em segurança, de volta ao meio da família e da sociedade.

PROVIDÊNCIA DIVINA

O local onde funciona o Centro de Apoio Aurora Boreal da Associação das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora de Fátima pertence ao Estado e foi cedido para o desenvolvimento de projetos sociais em 2.004. Segundo a presidente da obra, em 2010, houve uma tentativa frustrada de trabalho com adolescentes: "Com tanta tecnologia, poucos se interessam por trabalhos manuais”, disse ao justificar a desativação da iniciativa.
Instalações simples em meio à natureza: refúgio para o recomeço
Em 2.011, com o aval da Congregação das Irmãs Missionárias, teve início o projeto de reinserção social para dependentes químicos do sexo masculino em que a casa abrigava residentes egressos de comunidades terapêuticas. Eles participavam de atividades esportivas, laborterapia, psicologia individual e em grupo, realizavam artesanato, cuidavam da horta e tinham os momentos para estudos e a espiritualidade. Ao todo, 56 homens foram assistidos nos seis anos seguintes.
Laborterapia: a horta também garante verduras e legumes frescos 
A nova fase, com a oportunidade de atender exclusivamente as mulheres, teve início em setembro de 2017 diante da constatação de que há poucas iniciativas voltadas para a reinserção das dependentes químicas. A casa poderá abrigar até seis residentes, mas começará com três vagas diante dos custos de manutenção e da disponibilidade de trabalho voluntário das irmãs que permanecem 24 horas, em sistema de revezamento, junto às assistidas.

“A Aurora Boreal é um fenômeno da natureza porque só Deus consegue fazer aquela maravilha toda. E nós acreditamos que, na dependência química, esse novo despertar é uma Aurora Boreal na vida da pessoa”, comentou Irmã Santa enquanto mostrava as instalações da entidade.

POLÍTICAS PÚBLICAS

Na visita à Aurora Boreal, a conselheira do Conselho Estadual da Condição Feminina e delegada aposentada, Rossana Rossini Camacho, e a assistente social Cássia Giandon que atuou na Delegacia de Defesa da Mulher, foram recebidas pelas irmãs da Congregação e pelos diretores da entidade: Manoel Francisco Otre (secretário diocesano), Claudemir Messias dos Santos (tesoureiro diocesano), Zenin Gasparoto (membro da Pastoral da Sobriedade) e Fátima Aparecida da Silva Domingos.
Roda de conversa: Rossana Camacho falou sobre políticas públicas
Sob a sombra das árvores naquele ambiente bucólico, Irmã Santa conduziu a roda de conversa que contou com a presença da primeira residente: Adriana, 51 anos. “Essa é uma causa válida, necessária e está dentro de Marília onde existe a demanda”, iniciou Rossana Camacho. Conforme disse, “a sociedade precisa fazer o seu papel e o poder público se juntar para que essa obra siga em frente”.
Fátima, Rossana e Cássia com as irmãs missionárias
A conselheira estadual afirmou que trabalha “com políticas públicas para mulheres e isso é uma das políticas: trabalhar com a mulher em situação de violência. A mulher dependente química está exposta, é mais vulnerável que os homens. Tem a questão da gravidez, da facilidade de conseguir a sua droga. Então, isso aqui é necessário e temos que nos mobilizar”, acentuou.
Irmã Santa na cozinha: ambiente acolhedor
Para Zenin Gasparoto, que há muitos anos atua na área, “esse é um trabalho sério, mas tem pessoas que não acreditam. Lido com isso 24 horas porque, para a sociedade, é mais fácil julgar, criticar e condenar do que estender a mão. As pessoas acham que é uma perda de tempo, que não tem solução”.
Um dos quartos da instituição
Irmã Santa ressaltou que a Aurora Boreal não realiza tratamento para dependência química, atuando na reinserção social para que ex-usuários não retornem ao álcool e às drogas. Rossana Camacho complementou lembrando que “o que está se fazendo é quebrar a corrente da violência. Depois do tratamento é preciso fazer com que essas mulheres voltem a ter uma vida normal resgatando sua dignidade e isso é mais difícil”.
O colorido de uma  das salas da entidade
Zenin afirmou que “a família está tão doente quanto o usuário. Por isso, a obra faz o trabalho com a família para o resgate”. Neste sentido, a religiosa afirmou que “a casa é disponível para acolher a família a qualquer momento que quiser visitar. Nossos residentes estão voltando para a sociedade, trabalham, fazem cursos, mas vivem aqui. Somos a segunda família”.

VÍCIO AOS 14 ANOS

Aos 51 anos, órfã e com uma única irmã residindo no exterior, Adriana foi a primeira residente da nova fase da Aurora Boreal. Demonstrando um pouco de dificuldade para se expressar, devido aos medicamentos, ela tem uma curadora que a encaminhou para o projeto e tem se revelado um “anjo da guarda”.
Adriana: confiança no recomeço


Aos 14 anos conheceu o primeiro vício: o cigarro. Em seguida, experimentou álcool, maconha, cocaína, crack e tudo o que pudesse chegar às suas mãos. Pela situação financeira da família, conseguiu acesso aos tratamentos, mas logo recaía. Adriana contou que chegou a beber álcool gel em uma fase de abstinência severa e que, mesmo com cuidadoras por perto, conseguia um jeito de driblar a vigilância e voltar às ruas em busca de mais drogas.

Ao contar sua história, ela disse que, pela primeira vez, participava de um trabalho de reinserção após sair da fase de desintoxicação. Adriana ainda não pode sair sozinha, mas revela uma incrível vontade de superação: “Quero melhorar minha saúde, fazer academia, cuidar dos meus dentes”, contou.

Enquanto caminhava mostrando seu quarto cuidadosamente arrumado, Adriana recordou com tristeza as fases difíceis que enfrentou: “Teve uma vez que a comunidade em que eu estava, com umas 300 pessoas, foi lacrada. A gente era trancada em quarto escuro, sem banheiro e obrigada a fazer trabalho pesado”.
A capela está sempre aberta e a entidade recebe pessoas de qualquer religião
As memórias tristes ela tenta apagar com a esperança de que, finalmente, terá o poder de escrever uma nova história: “Acordo bem cedo, cuido dos morangos, da horta, me ocupo aqui. É um lugar que dá paz, que é o que todo mundo precisa”, finalizou.

CONTATOS

Para saber mais sobre a Aurora Boreal ou contribuir com o projeto, entre em contato no e-mail: auroraborealmf@gmail.com ou telefone (14) 33064354. A entidade localiza-se à Rua Antônio Dantas, 135, Quadra N no Jardim América, em Marília/SP.

2 comentários:

  1. Boas vindas aos seus escritos e as histórias que eles nos trazem. Este conto é mais um ponto na trama da rede colaborativa que anônimos tecem em benefício do bem estar da sociedade e de pessoas que precisam de apoio e atenção para começar de novo.

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    1. Obrigada, querido Ivan! Tem muitas coisas boas acontecendo e espero poder trazer algumas delas aqui neste espaço. Grande abraço

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