sábado, 4 de abril de 2015

COMO A APICULTURA ESTÁ AUMENTANDO A RENDA NO CAMPO E CONTRIBUINDO PARA A PRESERVAÇÃO AMBIENTAL.

Por Célia Ribeiro

Os benefícios do mel são conhecidos desde a antiguidade por suas propriedades medicinais e valor nutricional. Mas, para centenas de pequenos produtores rurais da região de Marília, a apicultura representa uma importante fonte de renda além de contribuir para o equilíbrio ambiental em suas propriedades, tendo em vista o papel das abelhas na polinização das culturas.
Flor de eucaliptos atrai abelhas

Olhando para algumas décadas atrás, os apicultores têm hoje bons motivos para comemorar. Após anos de incontáveis desafios, a Associação dos Apicultores de Marília e Região (AMAR) conquistou uma sede própria, a “Casa do Mel”, e obteve o registro do SIF (Serviço de Inspeção Federal) que lhe permite colocar no mercado um produto de alta qualidade testado nos laboratórios da Unimar (Universidade de Marília).

“A ideia de formar a associação vem de mais de 10 anos”, contou o presidente da AMAR, Fernando Mauro Lopes Ferreira, citando o pioneirismo do zootecnista Valter Eugênio Saia e de Antônio Fernando Scalco que aceitaram o desafio de reunirem pequenos agricultores interessados na apicultura, além daqueles que já se dedicavam à atividade.
 
As caixas ocupam pouco espaço na natureza
“Os dois organizaram a primeira reunião na CATI (Coordenadoria de Assistência Técnica Integral – Secretaria Estadual da Agricultura) convocando interessados através do jornal. Eles esperavam meia dúzia de apicultores. Mas, para surpresa geral, lotou o auditório com mais de 100 pessoas”, recordou Fernando.
 
Apicultores na sede da entidade
Depois deste pontapé inicial, o projeto ganhou corpo. A Prefeitura abraçou a ideia e construiu uma sede para a associação, na zona norte (Rua Eugênio Coneglian, 2558), inaugurada em 2012. No entanto, sem o registro do SIF e a estrutura necessária ao envase do mel, muitos desanimaram e ficaram pelo caminho, desligando-se da instituição. Dos cerca de 150 associados iniciais, apenas 100 apicultores permaneceram.

Esforço recompensado

Quem perseverou hoje colhe doces frutos. Com o apoio do SEBRAE, os associados participaram de cursos de capacitação para extração do mel, manejo das caixas com enxames, aquisição de maquinário em inox e adequação das instalações seguindo as rígidas normas sanitárias que norteiam o setor.

De acordo com Fernando Ferreira, “ainda não temos unidade extratora na associação, o que pretendemos no futuro quando mudarmos para um local maior. Hoje, o produtor tem o apiário na propriedade dele, onde extrai o mel e faz a centrifugação. Ele traz os baldes com o produto para a associação que encaminha amostras para análise na Unimar. Após a aprovação, o mel é decantado por 48 horas e envasado em embalagens de um quilo, meio quilo e 280 gramas”.

Rigoroso controle de qualidade
antes do envase da produção
Com o selo da AMAR e rótulo do SIF contendo todas as informações técnicas, o mel é entregue ao produtor que se encarrega de comercializa-lo junto aos seus clientes, geralmente pequenos mercados, padarias, farmácias etc, pagando à associação uma pequena taxa pelo envase. “A ideia é um dia contarmos com uma cooperativa. A AMAR é uma instituição sem fins lucrativos e por isso não pode comercializar a produção”, explicou o presidente.

O pequeno produtor entrega o mel a 14 reais o quilo para revenda. Apesar disso, o consumo per capita no Brasil é muito pequeno em relação a outros países. Segundo o presidente da AMAR, consome-se 200 gramas por pessoa, por ano. Nos Estados unidos, o consumo é de dois quilos per capita. “Com a disparada do dólar, muita gente está preferindo exportar e poderá haver falta de mel no País”, observou.
 
Marca registrada: segurança para o consumidor
Abelha não respeita cerca

“O pequeno agricultor tem as abelhas como uma fonte de renda viável economicamente. Hoje, com a questão ambiental, todos os proprietários têm que fazer o cadastro rural e determinar uma área de 20 por cento que tem que cercar, como área de preservação permanente. É uma área do proprietário, mas que não pode explorar”, informou o presidente da associação.

Entretanto, prosseguiu, “como abelha não respeita cerca, pode usar para a apicultura. É uma opção para transformar aquilo em uma fonte de renda. A abelha vai voando na flor, pega o néctar e traz para a colmeia. É uma atividade alternativa de baixo custo, fácil de manejar e que dá renda”.


Fumaça controlada para acalmar as abelhas
e realizar a retirada do mel com segurança
Uma abelha chega a fazer 17 viagens por dia até a colmeia, em um raio de 500 metros, passando por 50 mil flores. Por isso, seu papel é essencial na agricultura para a polinização das culturas. Já existe mercado de locação de colmeias para propriedades com queda na produção. Um dos fatores que impacta na redução da população de abelhas é o uso indiscriminado de defensivos agrícolas.

“Na Europa e Estados Unidos tem um produto banido, que ainda é usado no Brasil, que está acabando com as abelhas”, alertou Fernando Ferreira. No Rio Grande do Sul há notícias sobre uma devastação que atingiu 4.500 colmeias. “A abelha é muito sensível. Quando ela pega o agrotóxico ela não produz mel, ela morre. E se ela levar esse veneno para a colmeia vai matar as outras abelhas, também”, enfatizou o apicultor.
 
Detalhe da caixa no apiário
“A apicultura tem muitas vantagens porque é uma atividade que pode colocar em qualquer lugar na zona rural, não ocupa espaço, aproveita a mata e ainda faz a polinização das culturas”, acrescentou o presidente da AMAR, citando que “no Rio Grande do Sul é onde mais se ganha dinheiro com aluguel de colmeia para polinização de culturas, como a maçã e a pera. No estado de São Paulo já começou essa tendência, também, só que por causa do agrotóxico tem apicultor que prefere vender a colmeia ao invés de aluga-la devido aos riscos de mortandade”.

Paixão à primeira vista

A história de amor de Fernando com a apicultura começou há quase 20 anos. Profissional de Recursos Humanos de uma grande metalúrgica, por 36 anos, ele nunca se imaginou no meio do mato. Até que um dia, passando o fim de semana no sítio da família no distrito de Jafa (Garça), ele foi chamado para filmar a colheita de mel.
 
Apicultores vão a congressos nacionais e internacionais: eventos o ano
todo para troca de experiências e obtenção de conhecimentos.
“Nunca tinha colocado aquela roupa. Meu pai criava abelha e produzia mel só para consumo da família e naquele dia comecei a me interessar”, recordou com o sorriso entregando o momento da conquista. Não tardou e Fernando foi atrás dos equipamentos necessários, como a roupa protetora que lembra trajes de astronautas, e dos primeiros enxames comprados em Quintana.


Fernando: dedicação total à AMAR
onde faz até o envase de mel
“Era uma válvula de escape. Eu ficava preso no escritório o dia inteiro, na área de RH onde comecei aos 14 anos e fiquei até me aposentar, um ano atrás. Era uma terapia mexer com apicultura”, contou Fernando que disse estar imune às ferroadas das abelhas: “Toda semana era uma ferroada. No começo inchava. Com o tempo fui criando resistência”, disse, entre gargalhadas.

Aos 51 anos, gozando da merecida aposentadoria, Fernando dedica-se à atividade profissionalmente com muito prazer. Tem mais de 150 colmeias espalhadas por áreas de Pompéia, Padre Nóbrega, Garça, Vera Cruz e Marília onde consegue de duas a três colheitas por ano.
Trajes de proteção (Foto: Mercado Livre)
“Quem quiser se iniciar na apicultura precisa se informar, ter noções de segurança, principalmente, além de comprar equipamentos (bota, macacão, luvas), fumegador, formão etc, encontrados em lojas especializadas”, disse o presidente da associação. Só com orientação e a estrutura adequada é que se pode começar a atividade com segurança.

Projeto urbano

Com tempo para se dedicar à apicultura, Fernando comemora uma nova conquista: a Fundação Banco do Brasil aprovou um projeto para a AMAR adquirir equipamentos de envase de sachês, além de um veículo utilitário. Serão 94 mil reais doados para a instituição. “Com os sachês de mel poderemos entrar na merenda das escolas. Isso representará um grande avanço para os apicultores da cidade”, destacou.
 
Enxame retirado de uma
residência: perigo na cidade.
Outra ideia que pretende colocar em prática é um programa em parceria com a Prefeitura, Defesa Civil e Corpo de Bombeiros para instalação de “caixas-isca” para captura de enxames de abelha na zona urbana. “Dessa forma, resolveremos um problema sério porque com a falta de locais adequados na zona rural, como buraco de árvore, de pedras, onde se sintam seguras, as abelhas estão migrando para a cidade, formando enxames em caixas de energia, em forro de residências e isso é um problema grave”. Ao capturar essas abelhas com as iscas, a associação poderá doa-las aos novos apicultores que se iniciarem na atividade.


A Associação participa de eventos
 educativos nas escolas e locais públicos
Depois de tanto tempo como de gestor de Recursos Humanos, Fernando Ferreira só poderia mesmo se interessar pelas abelhas. Afinal, elas são amigas da natureza, trabalham sem cessar e ainda adoçam a vida. Merecem o prêmio de colaboradoras do ano!


Para entrar em contato com o presidente da AMAR, Fernando Mauro Lopes Ferreira, escreva para: fmlferreira@terra.com.br ou ligue: (14) 997254917

Obs: À exceção da foto do Fernando, as demais imagens são de seu arquivo pessoal.

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