domingo, 10 de março de 2013

PORTUGUESA DA VILA DE ARRAIOLOS SE ENCANTA COM PROJETO SOCIAL E OFERECE PARCERIA A BORDADEIRAS.

Por Célia Ribeiro

Na pequena vila portuguesa de Arraiolos, região de Alentejo, o tradicional bordado, ensinado de geração em geração, é a principal atração turística. Os tapetes confeccionados com refinada delicadeza ganharam o mundo com a reputação ilibada das bordadeiras que podem ser encontradas em ateliês espalhados por toda parte. A boa notícia é que tudo caminha para que os trabalhos elaborados por um grupo de artesãs de Marília sejam exportados para Arraiolos, seguindo de lá para outros mercados, como reza a globalização da economia.

Aninha: arraiolo como terapia
Para entender essa parceria Brasil-Portugal do século XXI, é preciso voltar a 2.011 quando a artista plástica Aninha Garcia Lopes recebeu o temido diagnóstico de um câncer de mama. Impactada com a notícia, ela enfrentou a depressão e o tratamento com armas potentes: tirou as agulhas do cesto de lã e transformou a dor e o medo no combustível necessário a um novo desafio: ensinar o bordado arraiolo em um dos projetos sociais mantidos pelo Univem (Centro Universitário Eurípedes de Marília).

Realizadas às segundas e quintas-feiras, nos intervalos do almoço e do jantar, as aulas de arraiolo logo chamaram a atenção dos colaboradores da universidade: de jardineiro a cozinheira, passando pelo pessoal administrativo, os alunos são de faixa etária e nível educacional bem distintos. Em comum, têm a vontade de aprender e se realizam com os bordados que formam belíssimos tapetes e painéis de juta e lã colorida.


No Univem, concentração no trabalho que exige muita delicadeza e precisão.
“Eu passei pelo fundo da agulha. Quem me tirou de lá foi o arraiolo”, declarou a artista plástica que mantém um serviço de Xerox na universidade há 11 anos. Ela contou que fez aulas de arraiolo durante 10 anos com a professora Rosana Serafim e quando se viu diante do diagnóstico de câncer foi orientada pelo médico a procurar alguma atividade para aliviar o estresse.

Mas, não bastava apenas bordar. Para Aninha, como é carinhosamente chamada pelos colegas, era preciso agregar algo mais. Assim, foi uma grata surpresa receber o convite para formar o grupo de arraiolo da Sra. Neusa Macedo Soares, esposa do reitor do Univem, Luís Carlos Macedo Soares, na época em que visitou uma exposição de seus trabalhos na própria universidade.

Recordação da viagem a Portugal
TERAPIA
Com muita dedicação e paciência, Aninha começou as aulas com os funcionários do Univem e, dia após dia, viu como a atividade impactava positivamente na vida das pessoas: “Teve gente que se curou da depressão, uma moça deficiente auditiva, que não ouve e não fala, hoje faz alguns dos mais lindos trabalhos. Temos no grupo um jardineiro de 70 anos que se distrai e borda os tapetes gerando renda para sua família”, assinalou.

 
Superando as dificuldades iniciais, afinal os alunos nunca tinham bordado nada, a professora organizou a primeira exposição, em maio de 2012. Para surpresa geral, o evento realizado na universidade foi um sucesso absoluto e quase todas as peças foram comercializadas, com a renda totalmente revertida aos bordadeiros de arraiolo.

Tapetes expostos em loja portuguesa
Como o Univem mantém um portal na internet e divulgou o trabalho do grupo, uma portuguesa leu a notícia e entrou em contato com a universidade, interessada em fazer uma parceria. Aninha não pensou duas vezes e no mês passado embarcou para a Europa tendo a vila de Arraiolo como primeira parada.

No local, ela visitou os ateliês e soube das dificuldades de comercialização dos trabalhos diante da crise econômica que assola a Europa. A portuguesa anfitriã contou os planos de levar os tapetes bordados para os Estados Unidos, via Miami, propondo terceirizar a mão-de-obra para o grupo de Marília já que necessitará de muita produção para exportar o artesanato.

COOPERATIVA À VISTA

Aninha afirmou que foi bem recebida e pode visitar várias oficinas e ateliês de arraiolo (sem autorização para fotografias, evidentemente). A diferença entre os bordados dos dois países é que em Portugal as peças são minimalistas, enquanto no Brasil os destaques ficam por conta de tapetes com padrões geométricos, numa releitura da arte milenar.
 
Aninha na exposição da UNESP

Algumas amostras de tapetes do grupo foram deixadas em Arraiolo para avaliação. Mas, ao que tudo indica, a parceria deve decolar ainda em 2013. “Neste caso, vamos formar uma cooperativa porque precisaremos de muito mais bordadeiras”, explicou a professora. “Voltei muito esperançosa. Se der certo, abriremos a cooperativa para o pessoal do Univem e também para toda a comunidade”, acrescentou.

Destaque para a padronagem geométrica na exposição da UNESP
 
Os tapetes de arraiolo são vendidos em torno de 700 reais o metro quadrado em Portugal. No Brasil, a média é de 600 reais. Mas, quem se interessar pelos trabalhos pode visitar a exposição que permanecerá aberta até o dia 13 de março, na biblioteca da UNESP de Marília. Os bordados estão bem mais acessíveis, a partir de 180 reais.
Exposição até 13 de março, onde podem ser adquiridos os tapetes de arraiolo

Finalizando, Aninha, que superou o tratamento e reencontrou a alegria de viver através do bordado, manifestou o desejo de “transmitir para outras pessoas um pouco do que o arraiolo fez por mim, me tirando do fundo do poço. Antes, eu bordava porque gostava. Hoje, eu bordo com a alma. Vai meu coração junto”.

Para contatar a artesã, escreva para: aninha-ccuunivem@hotmail.com
 
VIDA NOVA

Além de colaboradores do Univem, participam da oficina de arraiolo também alguns familiares, como é o caso da pensionista Nair Villa, de 66 anos. Mãe de um funcionário da universidade, ela entrou em depressão com a morte do esposo, chorava o tempo todo e temia estar caminhando para uma doença mais grave: “Eu esquecia das coisas e pensava que já estava com Alzheimer”, relatou.
Dona Nair recebe orientação da professora Aninha
Incentivada pelo filho para ocupar a mente, ela foi às primeiras aulas, há um ano e meio, e não parou mais: “Eu aprendi tudo lá e minha vida melhorou mil vezes. Ali eu me distraio, esqueço os problemas e sou outra pessoa”, disse, reforçando o convite para a exposição da UNESP: “Também tenho três trabalhos lá”, finalizou.

* Reportagem publicada na edição de 10.03.2013 do Correio Mariliense

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