domingo, 17 de março de 2013

EM MARÍLIA, EX-CAMINHONEIRO FORMA RESERVA NATURAL COM ESPÉCIES TRAZIDAS DE NORTE A SUL DO BRASIL.

Por Célia Ribeiro

No sertão nordestino, o menino caminha lentamente sob sol forte, lata na cabeça, levando o precioso líquido para casa. No trajeto, cuidando para não derrubar a água conseguida com dificuldade, sonha acordado com uma vida melhor, onde contemplará o verde ao abrir a janela e a água, abundante, jamais será desperdiçada. Cinquenta anos depois, João Urbano de Sá realizou o que parecia impossível: comprou um pedaço de chão, formou uma reserva natural com centenas de espécies nativas, planta e colhe os alimentos para subsistência da família e goza a aposentadoria pescando no quintal de casa.
Palmito à vontade no quintal
 
A saga do “Seu”João, conhecido por Gelson, e dona Laurinda, a esposa mineira, será contada nesta edição e também no próximo domingo. Casados há 40 anos, pais de 04 filhos e avós de 08 netos, eles sonharam juntos e, sem saber, estabeleceram metas dignas do planejamento estratégico das empresas modernas. Assim, passo a passo, atingiram os objetivos vislumbrados na vida dura do campo.

Ajeitando a rede na varanda, o cearense de fala arrastada volta no tempo rememorando como formou, na pequena propriedade de 7.000 metros quadrados, localizada em um condomínio de chácaras às margens dos itambés da Rodovia Marília – Bauru, o paraíso dos sonhos de infância. Quando tinha oito anos, a família de João saiu do Ceará, fugindo da seca, em busca de uma vida melhor em Minas Gerais: “Nasci e fui criado na roça”, disse, assinalando que continuou no campo mesmo depois de casar-se com a mineira Laurinda.
 
Dona Laurinda e João Urbano: sonho realizado
Como milhões de retirantes, não tardou para que João e Laurinda quisessem alçar voos maiores. Mudaram-se para São Paulo. “Deixamos de passar fome no Nordeste para sofrer dentro da cidade grande”, recorda com tristeza. Durante cinco longos anos, João trabalhou como ajudante de caminhoneiro até surgir uma oportunidade no Mato Grosso.

 “Ali eu tinha a vida que pedi a Deus. Pescava, caçava, plantava”, lembrou o saudoso João Urbano que, a despeito do nome, queria mesmo fincar os pés descalços na terra, no mato. No entanto, ainda não tinha chegado sua hora. Com os filhos crescendo e precisando de escola, o lugar não oferecia as condições para João e Laurinda educassem os filhos, hoje formados e bem casados.

Horta orgânica recebe água da chuva
TERRA PROMETIDA

Já que a família era prioridade, João decidiu mudar-se para Marília, 30 anos atrás. Retomou as viagens, agora como caminhoneiro, sem esquecer o sonho de infância: ter um pedaço de terra para plantar e viver em paz. Quando residia no bairro Chico Mendes, a oportunidade surgiu na forma de um novo loteamento. O casal juntou as economias e encarou 36 prestações de dois mil reais pela área.

 
Nos finais de semana, João cuidava da propriedade. Cercou toda a área e começou a plantar. Organizado, fez um caderno para anotar todas as mudas que trazia das viagens: ipê amarelo, ipê branco, jatobá, jacarandá, mogno, cedro rosa, murici (Pará), baru (Tocantins), aroeira, peroba, cabreúva, flamboyant, marfim, café, palmito etc, além das frutíferas.

Mais de 150 galinhas criadas soltas na propriedade
O pomar do “Recanto Mineiro” como é chamado, tem um pouco de tudo: pés de limão, banana, laranja, jabuticaba, goiaba, maçã, maracujá (doce e azedo), pêssego, pinhão, pequi, romã, tangerina, seriguela, uva, louro, macadâmia, abricó, carambola, côco, gabiroba, graviola, framboesa, entre outras.

Para irrigar a plantação, inicialmente ele perfurou um poço caipira. Mas, assim que se aposentou, há quatro anos, construiu a espaçosa casa de 110 metros quadrados, instalando um sistema de calhas para coleta da água da chuva. Em duas caixas, são armazenados 6.000 litros de água utilizada na horta orgânica e na irrigação do pomar. “Dava dó ver tanto desperdício de água quando me lembro do tempo que carregava lata d’água na cabeça”, comentou, justificando o investimento.

Água da chuva é armazenada nos tanques de 3.000 litros cada um
Aos poucos, o que parecia miragem ofuscando a visão dos viajantes sob sol escaldante transformou-se no oásis sonhado desde a mais tenra idade. No recanto não falta nada: mais de 150 galinhas garantem ovos orgânicos e em três tanques há criação de tilápias, curimbas e pacus. O feijão, a mandioca e outros alimentos são cultivados para o consumo. E nem a rapadura faz falta: os pés de cana-de-açúcar garantem a matéria prima extraída pelo engenho guardado no quiosque que João construiu para os churrascos de fim de semana da família.

RESERVA NATURAL

Desde que adquiriu a área, João Urbano focou no objetivo de morar no paraíso. Com cuidado, a cada viagem pelos quatro cantos do Brasil ele trazia mudas na boleia do caminhão. “Eu molhava uns panos e cobria as mudas. A cada cinco ou seis horas eu parava e molhava de novo. Assim, elas chegaram inteiras até aqui vindas de toda parte, da Amazônia, Tocantins, Pará, do Sul etc”, revelou.

Criação de peixes garante o lazer da família
Em contraponto à seca do lugar que nasceu, o caminhoneiro vive cercado de água. Mas, sem desperdício, honrando a promessa que fez quando menino. A água do poço desce por gravidade até um reservatório que fez com as próprias mãos e de lá segue para os tanques de peixes. Também há uma tubulação que leva ao orquidário, lugar preferido de dona Laurinda. Essa água de qualidade, atestada por exames que João sempre manda realizar, serve toda a família.

Flor o ano inteiro no orquidário da dona Laurinda
  Orgulhoso e feliz pelo que conquistou, João Urbano, a despeito do nome, conseguiu fincar os pés no mato. “Eu não podia trazer o mundo comigo. Então, eu fiz o meu mundo aqui,” finalizou.
Comida caseira no fogão à lenha: tudo como antigamente
Domingo que vem, o Correio Mariliense trará a segunda parte desta reportagem mostrando o perfil de dona Laurinda. A casa, seguindo seu desejo, foi construída em volta do fogão à lenha. A cozinha, cômodo principal, tem 40 metros quadrados!

 * Reportagem publicada na edição de 17.03.2013 do Correio Mariliense

5 comentários:

  1. Parabéns pela matéria prova que cada qual escolhe a estrada pela qual vai caminhar,estou ansiosa pela continuação desta bela história .

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    1. Querida Mariah, obrigada pelo comentário. Eu tbem me emocionei ao conhecer essa história. Bjsss

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  2. parabéns pela matéria prova que cada qual escolhe seu caminho.estou ansiosa pela segunda parte.

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  3. Sensacional essa história, Celinha! Parabéns por descobrir o sr. João Urbano e contar pra gente um pouco da história dele, uma história muito inspiradora. E melhor ainda saber que ele escolheu Marília pra morar e que tem essa maravilha pertinho da gente. Parabéns pela matéria, muito legal, estou aguardando a segunda parte. Um abraço!

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    1. Muito obrigada, caros! Muito bom ter esse feedback de vcs! Grande abraço

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