domingo, 31 de março de 2013

CATADORES DE RECICLÁVEIS TEMEM FICAR SEM TRABALHO APÓS DESOCUPAÇÃO DE TERRENO NO BAIRRO PALMITAL.

Por Célia Ribeiro

Embora não haja nenhuma estatística oficial, estima-se que existam milhares de catadores de recicláveis em Marília. Castigados pelo sol forte, eles aparentam mais idade e trabalham duro para sobreviverem com o que as pessoas descartam no lixo. Para um grupo de 40 catadores, além dos problemas do dia-a-dia, a preocupação agora fica por conta do futuro quando for desativado um depósito localizado no bairro Palmital, no próximo dia 28 de maio.
 
Paulo sai de casa de madrugada, diariamente.

Esta é a data limite para que Claudenice Santana, 35 anos, desocupe um terreno da Rua Independência, 652, de onde dezenas de famílias tiram sua subsistência. A ordem foi expedida pela Prefeitura Municipal de Marília que, segundo a recicladora, “quer que a gente vá para alguma área na beira da estrada”.

Casada e mãe de três filhos, Claudenice seguiu os passos de sua mãe que mantém um ferro-velho há muitos na Vila Nova. Há três anos, ocupou a área do Palmital, segundo garantiu, com autorização do proprietário, passando a receber papelão, plástico, vidro, alumínio, metal, sucata etc, de catadores independentes que chegam com os carrinhos abarrotados com toda sorte de materiais.

 
Diversos tipos de recicláveis no terreno do Palmital

Em média, um “carrinheiro”, como é chamado o catador de recicláveis, chega a faturar de 50 a 70 reais por dia. Eles começam muito cedo, quando a cidade ainda dorme. Às 5 horas da manhã, Paulo Lucas Cardoso, de 42 anos, já está na rua. Na última quarta-feira, ele separava seus materiais enquanto atendia o Correio Mariliense, com a pressa típica de quem não tem tempo a perder.

Como Paulo, quase 40 catadores vendem os recicláveis para dona Claudenice que não economiza críticas à Prefeitura. Conforme disse, “o dono do terreno não quer que eu saia. Mas, a Prefeitura encurralou ele (sic)” com uma multa de nove mil reais! “A Prefeitura quer que eu saia daqui e vá para a beira da rodovia. Mas, quem aguenta empurrar um carrinho com 200 quilos do centro da cidade até a rodovia?”, desabafou.

 
Claudenice critica o descaso da Prefeitura

Para Claudenice, falta uma política ambiental focada na reciclagem de lixo: “Eles não se importam de pagar milhões para jogar fora o lixo. Não querem saber porque o dinheiro é do povo”, criticou, referindo-se à falta de uma cooperativa ou central de reciclagem de lixo apoiada pelo poder público local.

Ela lembrou que muitas cidades estão muito mais avançadas nesta área, citando o vizinho município de Pompéia. “O prefeito dá os sacos próprios com alças para as pessoas recolherem o lixo reciclável que tem dia certo para colocarem na rua. Daí, eles pegam os sacos cheios e deixam outros sacos limpos”, assinalou.

ORGANIZAÇÃO

Apesar da informalidade do negócio, Claudenice mostrou ser bem organizada: recebe diariamente os recicláveis dos catadores independentes e ainda mantém quatro catadores diaristas. Todo o material é separado e pesado. Depois, o valor devido é anotado e o pagamento realizado todos os sábados. O local só não abre aos domingos. Nos demais dias, de 7 às 19h, o movimento é intenso por lá.

Casal trabalha junto nas ruas há cinco anos.
A recicladora relatou inúmeras histórias de superação das pessoas com quem convive no depósito: “Tem a Márcia que deixa a filhinha na creche e sai catando recicláveis. Ela consegue o dinheiro dela aqui, até 60 reais por dia, e com isso mantém a família, tem nome limpo e faz compras no comércio. A menina dela anda sempre bem arrumada, como uma bonequinha.”

Muitos casais também trabalham juntos na rua, como Margarida Silva e Paulo. De aparência frágil, a catadora contou que há cinco anos recolhe recicláveis das ruas com o marido e o dinheiro sustenta a família. Com a iminente desocupação do terreno, ela  se mostrou desolada, sem saber como vai fazer.

PREFEITURA

Em nota, a Diretoria de Divulgação e Comunicação da Prefeitura Municipal de Marília afirmou que: “Segundo a área jurídica da Prefeitura, após o recebimento de uma denúncia de vizinhos, apurou-se duas irregularidades: a área é particular e foi invadida; o depósito de vários tipos de material fere totalmente o Código de Posturas. Daí, a reclamação de vizinhos. Por tudo isso, a Prefeitura estabeleceu o prazo para a desocupação”.

Destalhe dos recicláveis armazenados
Dona Claudenice explicou que os materiais ficam no terreno, no máximo, durante três dias porque logo são revendidos. Ela refutou críticas de riscos à saúde pública, afirmando que os agentes de saúde vistoriam o local para verificarem as condições de armazenamento de materiais visando à prevenção da dengue: “As moças passam aqui, fiscalizam e vão embora porque está tudo em ordem”, finalizou.

* Reportagem publicada na edição de 31.03.2013 do Correio Mariliense

2 comentários:

  1. Celia,
    Muito obrigada. Sem duvida essa sua reportagem e muito importante para conscientizacao da populacao Mariliense sobre sustentabilidade ambiental, economica e social. Talvez os orgaos responsaveis da regiao ou municipalidade poderao encontrar juntos solucoes para casos como esse, principalmente se ja conhecerem o documento original sobre a lei
    http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm

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    1. Olá! Obrigada pelo comentário. Todas as informações são bem-vindas! Apareça sempre! abraços

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