domingo, 15 de abril de 2012

GERAÇÃO DE RENDA E TERAPIA: CURSO DE ARTESANATO REUNE MORADORAS DA ZONA OESTE

Por Célia Ribeiro

“Numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo. E com cinco ou seis retas é fácil fazer um castelo”: a letra da canção Aquarela, imortalizada pelo compositor de MPB Toquinho, quase salta dos potinhos de tinta para os tecidos rústicos dando vida aos desenhos coloridos dos panos de prato. A cena, que reúne meninas e mulheres na zona oeste, se repete toda terça-feira à noite quanto o grupo se encontra para as aulas de artesanato.
Garotas como Tainara (à direita), também estão no curso

A iniciativa partiu da comunidade, através da Associação de Moradores do Jardim América IV. Dos bate-papos informais, nas reuniões na Unidade de Saúde da Família (USF) do bairro, surgiu a ideia das mulheres se organizarem para as aulas de artesanato visando à geração de renda. Mesmo sem ter um local adequado, já que nem Centro Comunitário existe no bairro, falou mais alto a vontade de aprender as técnicas.

A dona de casa Marli da Silva, 45 anos e dois filhos, cedeu a garagem da residência localizada nas proximidades da USF, à rua Arnaldo Silva, 104. Foram providenciadas mesas e cadeiras e a Associação se encarregou da ajuda de custo para trazer a professora Zilda de Fátima Menegon Fernandes, que atravessa a cidade, vinda do Jardim Maria Izabel, na zona leste, especialmente para as aulas.
Garagem da casa reúne as alunas
 Após lecionar por 15 anos, a técnica em Química, que se aposentou no Setor de Qualidade da Dori, sempre teve jeito para os trabalhos manuais. Por isso, o convite para ensinar as mulheres do Jardim América IV e adjacências foi aceito de pronto: “No começo, cada uma fazia sua pintura, individualmente, e eu dava apoio. Agora, estamos trabalhando um desenho coletivo e, assim, posso passar a técnica correta para termos menos retoques no final”, explicou a professora.

 As motivações das aplicadas alunas são diversas. Enquanto as meninas, como Tainara Scaquete, 14 anos, e Alana Oliveira Galindo, 12 anos, contaram que estão pintando panos de prato para as mães, as mulheres mais velhas pensam em fazer do trabalho uma forma de incrementar a renda familiar: “Eu não sabia nadinha e estou fazendo para o gasto. Mas, quando aprender bem vou comprar uns panos melhores e fazer pra vender”, revelou a aposentada Josefa Alvarez Ferreira, de 60 anos.

Dona Marli cedeu a garagem de casa
Nas aulas de crochê e tricô, promovida pela associação às quartas-feiras à tarde, no prédio da Unidade de Saúde, dona Josefa aprendeu a confeccionar tapetes de barbante e já está lucrando com atividade: vendeu seis peças no próprio bairro. Com os panos de prato pintados no capricho ela espera repetir o sucesso da empreitada.

MOSTRUÁRIO

Com duração de três meses, o curso de pintura em tecidos completou 60 dias no começo da semana. Das 19 às 22h, toda terça-feira, o grupo heterogêneo se encontra na casa da dona Marli e aproveita cada minuto. Concentradas, as alunas estão preparando um mostruário das peças para atraírem a freguesia quando concluírem o aprendizado.

A professora quer promover uma exposição dos produtos para divulgar o trabalho e, evidentemente, abrir as portas para a venda do artesanato: “A aula não é só aquele momento de pintura. Mas, é também um momento de relaxamento, de distração, é uma terapia que a gente faz aqui dentro”, observou a professora Zilda Fernandes.
A professora mostra os trabalhos do futuro mostruário
Ela contou que o clima é sempre de alto astral: “Aqui a gente conversa, dá risada, faz amizades. Além do artesanato, temos o convívio entre as moradoras do bairro, o que é muito gostoso porque formamos uma grande família”.

Na noite de terça-feira, concentrada na atividade, uma das alunas tinha um motivo especial para frequentar o curso. Segundo informou uma das moradoras, a moça sofria com frequentes crises de convulsão. Após começar a frequentar as aulas, a saúde se estabilizou e sua qualidade de vida é outra.

Para ela, assim como para todas as participantes do curso de pintura em tecido, atrás do arco-íris dos potinhos de tinta se esconde a beleza que têm o desafio de revelar em singelos trabalhos manuais.

 * Reportagem publicada na edição de 15.04.2012 do Correio Mariliense

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