domingo, 31 de julho de 2011

COM UMA CARTILHA ORIGINAL, AMBIENTALISTA QUER OS JOVENS DISCUTINDO A SUSTENTABILIDADE


Por Célia Ribeiro

Antes do corte
Ao toque da campanhia, meninos e meninas correm para seus lugares e se preparam para a primeira aula do dia. A chegada do professor impõe respeito e o burburinho vai diminuindo numa sala da Escola Estadual Bento de Abreu, na zona leste. De repente, um barulho ensurdecedor invade o lugar e não há como conseguir a atenção dos alunos: são as motosserras derrubando os pinheiros plantados em 1.975, na Fazenda Cascata.

Aquelas crianças, que estão aprendendo sobre preservação ambiental, viram seus esforços caírem junto com os galhos e troncos das frondosas árvores. Apesar da mobilização que fizeram, dias antes, na esperança de impedir a erradicação dos pinheiros, tiveram que conviver com o ruído das máquinas destruidoras enquanto tentavam prestar atenção à aula. Como explicar esse contraste àqueles a quem se pretende ensinar, desde a mais tenra idade, a importância da preservação ambiental?

 Quem lembra esse dia é o ambientalista Rodrigo Más que, junto com outros militantes da causa, tentaram uma mobilização para evitar o corte dos pinheiros. Ele conta que a situação vivenciada naquele momento lhe deu mais força para concluir um projeto audacioso: através de uma cartilha inovadora, pretende trazer os jovens para o debate da questão ambiental.

Rodrigo Más
“Marília não tem educação ambiental. Até hoje eu não identifiquei educação ambiental na cidade. O que nós temos são alguns apontamentos, alguns sinais”, afirma o ambientalista, acrescentando que reconhece como válidas algumas iniciativas voltadas às crianças, “mas a gente não pode ficar só falando de economizar água fechando a torneira, de tambor colorido para o lixo", na coleta seletiva.

Para ele, “temos que pegar o jovem que está sendo jogado no mercado de trabalho, que está naquele consumo tecnológico, naquele consumo de alimento extremamente industrializado, num momento delicado da sua vida, e trazê-lo para um nova ordem, de concepção holística de vida, de bem estar, de consumo moderado, de valores de cidadania, de democracia participativa e mostrar que meio ambiente não é apenas um fetiche da sociedade moderna”.

Na cartilha que elaborou para a faixa etária de 14 a 19 anos, Rodrigo Más quer os jovens despertando para temas como a economia criativa e ocupação urbana: “Nós temos que quebrar o paradigma de desenvolvimento do século 20”, centrado nas grandes obras como indicadores de crescimento. “No nosso entendimento, a cidade está ótima, não precisa crescer mais. O que nós precisamos agora é agregar qualidade de vida porque a ocupação urbana está sendo irregular”.

PODAS RADICAIS

O ambientalista deixa claro que não está criticando pessoas ou órgãos. Mas, ressalta que falta planejamento: “As grandes obras, às vezes, não são tão bem utilizadas, às vezes são desnecessárias, são muito impactantes. Temos que ter um nivelamento social, fazer a ocupação urbana regular e não entrar nas APPs (Áreas de Preservação Permanente)”.

Na Rua Paraná, o contraste entre as duas árvores
Prosseguindo, Rodrigo comenta que “as pessoas levam muito para o campo da pessoalidade. Não critico o município nem tampouco alguma pasta. Mas, o meu olhar é de um ambientalista e eu não acredito que uma cidade que não preserve a paisagem urbana traga bons comportamentos aos cidadãos”, observa lamentando as podas drásticas que estão mutilando as árvores por toda a cidade.

Para ele, uma cidade “bem arborizada, bem oxigenada, vai refletir na saúde das pessoas, no dia-a-dia”. Ele acrescenta que “isso é um fato tão concreto que as pessoas buscam a Avenida Esmeralda para caminhar e não as margens das rodovias que têm um sentido de desertificação”.
Desolação na rua
Rodrigo revela tristeza ao percorrer a região central da cidade e se deparar com as árvores sem um galho, devido às podas drásticas: “A paisagem urbana não está sendo trabalhada e isso é um direito do cidadão, de ter uma cidade de uma estética preservada, bonita e bem conservada”.

Ele afirma que isso é possível. Em visita a Presidente Prudente, Rodrigo Más conheceu o Parque do Povo, localizado na região central: “Fiquei deslumbrado. As sibipirunas fazem parte da paisagem urbana. As fiações se adequam às sibipirunas e não as árvores se adequam às fiações. O parque tem internet Wi-Fi, concha acústica para as bandas se apresentarem e, por incrível que pareça, não achei um papel jogado no chão”.

CARTILHA
 Autor do conteúdo e ilustrações da cartilha, Rodrigo Más teve a colaboração do desenhista Maurício Mafea para a bonita capa. Ele pretende lançar a primeira edição com 10 mil exemplares e que o material sirva de apoio para os professores em sala de aula: “Quando fiz parte do Projeto Agente Jovem de Cultura, no polo de cultura e meio ambiente, percebi uma dificuldade de achar materiais impressos. Trabalhei muito com pesquisa na internet”, recorda.

Não sobrou nada
Rodrigo destaca que pretende apresentar um trabalho diferenciado das cartilhas básicas que tratam da questão ambiental: “O jovem do século 21 está inserido em outro contexto de meio ambiente. Então, decidi falar de ocupação urbana, de transformações abrangendo as estatísticas do IBGE, dos recursos hídricos e dei enfoque na importância da preservação dos rios na cidade e também sobre a economia criativa”.

Neste sentido, prossegue, assinalando que “Marília é uma cidade genuinamente industrial e nós precisamos estimular mais a parte criativa do jovem. Hoje, não dá mais para incentivar o jovem a fazer curso de marcenaria ou torneiro mecânico. Você tem que incentivar o jovem a criar software”.

Em sua opinião, “o Brasil se mantém muito em cima da economia primária. Estamos investindo pouco em economia criativa. É necessário, nessa economia globalizada, em que os mercados oscilam muito, investir mais nessa área para nos precavermos de uma possível crise mundial. Penso que Marília está na hora de começar a incentivar isso”.

Através da cartilha intitulada “Marília e Sustentabilidade – Transformações do Século 21”, Rodrigo Más espera colaborar com os professores nas discussões com os alunos: “Não podemos subestimar a capacidade dos jovens. Hoje estamos falando em plataformas de comunicação muito avançadas, de internet e tem a falsa impressão que o jovem está emburrecendo, o que não é verdade. Se você levar informação oxigenada, bem pautada, o jovem vai recepcionar, sim”.

Finalizando, o ambientalista revela o desejo de que “essa cartilha seja objeto não só de estudo, mas de muito prazer para o jovem”.

Reportagem publicada na edição de 31.07.2011 do Correio Mariliense
As fotos dos pinheiros são do fotógrafo Alexandre de Souza. As demais são de Célia Ribeiro

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