segunda-feira, 21 de março de 2011

A Sustentabilidade discutida entre os fiéis: Campanha da Fraternidade faz alerta sobre aquecimento global

Por Célia Ribeiro

“Deus sempre nos perdoa. A natureza não”. A frase, lançada durante a entrevista sobre a Campanha da Fraternidade 2.011, pelo padre Marcos Roberto Marques Ortega, é autoexplicativa. O planeta não suporta mais as agressões do homem e se manifesta em incontáveis desastres ambientais, contabilizando um nefasto saldo de perdas materiais e, pior que isso, de milhões de vidas.

Cartaz da campanha
Criada em 1.964, a Campanha da Fraternidade da igreja católica chega à 47ª. edição convidando à reflexão sobre a problemática do aquecimento global . Esta não é a primeira vez que a igreja toca no assunto. Temas como a Amazônia, a água e os povos indígenas já foram discutidos em anos anteriores. No entanto, as recentes tragédias provocadas por enchentes e deslizamento de encostas no Brasil estão vivas na memória e devem servir como catalizadores para a conscientização e mudança de hábitos.

Coordenador diocesano da Campanha da Fraternidade da Diocese de Marília, o padre Marcos Ortega explicou que a campanha aproveita o período quaresmal, de preparação para a Páscoa (morte e ressurreição de Jesus Cristo), para lançar uma semente de reflexão aos fiéis. Embora organizada com muita antecedência e exigindo o envolvimento de todas as paróquias e a comunidade, a campanha só terá resultados mensurados a longo prazo.

“A igreja traz o tema para a reflexão, justamente para um conhecimento maior e uma tomada de consciência do povo, não só do católico, mas de outras comunidades, a respeito da problemática do aquecimento global”, assinalou o coordenador. Conforme disse, “nosso papel diocesano é formar multiplicadores. A iniciativa de atividades é bem paroquial e cada um faz a sua ação”.

Na prática, continuou o padre, “cada comunidade tem a liberdade e o dever de trabalhar o tema na sua cidade”. Ele citou a destinação do lixo urbano: as pessoas de determinada paróquia “podem procurar as autoridades municipais e solicitar que seja trabalhada essa ideia para que Marília tenha coleta seletiva de lixo”, exemplificou.

Padre Marcos Ortega, coordenador diocesano
O importante, de acordo com o padre Marcos Ortega, é que cada paróquia use a criatividade procurando maneiras de contribuir para a reflexão. Outro exemplo são as atividades com as crianças na catequese: sensibiliza-las para que não joguem papel de bala na rua, que os pais usem sacolas de tecido no lugar das sacolas plásticas de supermercado etc.

AQUECIMENTO GLOBAL

Tendo como tema “Fraternidade e Vida no Planeta” e o lema “A criação geme em dores de parto” (citação bíblica de Romanos 8,22), a campanha da igreja católica foca no aquecimento global . “Nós, o povo, de uma maneira geral, temos o dever de preservar o planeta e o dever de cobrar das autoridades” que façam sua parte, afirmou o coordenador.

Ele lembrou que os estragos não podem ser revertidos: “A água que já derreteu das geleiras nos polos norte e sul não volta mais pra lá; essa água vai, com certeza, ao longo dos anos, tomando posse das áreas costeiras dos continentes. Isso é uma coisa clara. Não se volta atrás”. Dessa forma, prosseguiu o padre, “a tomada de consciência, agora, é para a gente tentar frear o processo de aquecimento global. Mas, o que danificou, danificou.”

O padre Marcos Ortega também falou sobre as mudanças climáticas no Brasil: “A devastação da Amazônia está mudando o clima, as queimadas estão abrindo buracos na camada de ozônio. Os raios solares vão entrar com maior intensidade e teremos mais câncer de pele. O clima está maluco. Já viu carnaval com frio? Este ano tivemos carnaval com frio”, enfatizou.

Todas as iniciativas ecologicamente corretas devem ser praticadas enquanto é tempo, frisou o padre, citando: a destinação correta do lixo, a reciclagem e reutilização de materiais que seriam descartados na natureza, não lançar óleo vegetal na pia, substituir sacolas plásticas pelas de tecido, economizar energia elétrica e adotar o consumo consciente de água etc.

“Este é um grito de alerta. A missão primeira da igreja é a evangelização. Mas, o lado social está muito ligado a isso”, observou para, em seguida, acrescentar: “Evangelizar é falar da palavra de Deus. E a palavra de Deus não fala do amor ao próximo? O amor ao próximo passa por isso, preocupar-se com as futuras gerações. Daqui a 200 anos a situação poderá estar muito mais complicada”, afirmou.

SUSTENTABILIDADE

De acordo com o coordenador diocesano da Campanha da Fraternidade, a sustentabilidade entra em cena para que todos pensem no futuro: “Uma parte da campanha é que nós precisamos começar a pensar numa economia que seja sustentável. Você não pode só tirar da natureza. Uma hora vai acabar”.
Mário César Vieira Marques, secretário municipal do Meio Ambiente

Ele citou o consumismo exacerbado como outra questão a ser observada: “Se todo mundo resolver consumir no ritmo dos norte-americanos, precisaríamos de três vezes mais de matéria prima no planeta”. Olhando para a caneta esferográfica, o padre comentou: “Ao invés de jogar essa caneta fora, por que não comprar só o refil dela? E se possível devolver o refil interno para que a BIC preencha com tinta de novo?”

“A vida não foi criada por Deus simplesmente para se consumir, mas para que ela possa se realizar como ser humano”, observou o padre, concluindo: “Pela gravidade, não é uma campanha que estamos falando dos índios, de quem está passando fome na África. Pobre e rico sofrem os efeitos do aquecimento global. Se o rico tem casa na praia a água vai chegar lá, se a encosta não cair antes. Não tem alternativa nem para o pobre, nem para o rico. A gente tem que fazer alguma coisa e agora”.

No site da CNBB, há vasto material da campanha como partituras de músicas, informes e o cartaz. Acesse:   http://www.cnbb.org.br/ e clique em campanhas.

RECICLAGEM

 Algumas sugestões: em Marília, os consumidores podem levar o lixo reciclável na estação do Supermercado Pão de Açúcar: papel, plástico, vidro e metal. O lixo reciclável é doado para os catadores da Cotracil (Cooperativa de Catadores de Recicláveis Cidade Limpa) que sobrevivem da venda dos materiais.
Aposentado leva recicláveis ao Pão de Açúcar

No caso do óleo usado de cozinha, o Supermercado Confiança recebe o produto armazenado em garrafas pet. A cada 4 litros de óleo usado, o consumidor recebe uma garrafa de 900 ml de óleo de soja novo. Este óleo é usado na fabricação de biodiesel.

Vale lembrar que cada litro de óleo lançado na pia da cozinha, e que vai para o esgoto, contamina um milhão de litros de água nos córregos e rios.

* Reportagem publicada na edição impressa de 20.03.2011 do "Correio Mariliense"
http://www.correiomariliense.com.br/

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